O plano do governo norte-americano de limpar o mercado dos débitos hipotecários podres e a ampla proibição de vendas à descoberto de ações fez com que os papéis de instituições financeiras subissem 40% nesta sexta-feira, enquanto as negociações sobre aquisições no setor prosseguem.
O Morgan Stanley mantém conversas com o Wachovia Corp e outros bancos sobre uma possível fusão, ao mesmo tempo, a instituição discute um possível aumento dos investimentos do fundo soberano da China, disseram fontes com conhecimento sobre os planos.
O HSBC desistiu do acordo de 6,3 bilhões de dólares para assumir o controle do Korea Exchange Bank, o que alimentou as especulações sobre o possível interesse da instituição britânica por um de seus rivais no Ocidente. O maior banco da zona do euro, o espanhol Santander, evitou comentar uma matéria publicada na imprensa que afirmava que a instituição estaria interessada no Bank of Ireland.
Depois que a Financial Services Authority (FSA) da Grã-Bretanha impôs na quinta-feira a proibição, por quatro meses, das vendas à descoberto de ações de instituições financeiras, a Securities and Exchange Commission (SEC) a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos resolveu adotar a mesma postura, estipulando a proibição destas operações por 10 dias, iniciando nesta sexta-feira.
Ao mesmo tempo, os principais bancos centrais redobraram seus esforços para garantir o funcionamento dos mercados de crédito. Os BCs do Japão, Austrália, Índia e Indonésia injetaram 42 bilhões de dólares nos mercados, depois que o Federal Reserve dos Estados Unidos coordenou um pacote de 180 bilhões de dólares na véspera.
Questão de horas
Na véspera, o secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, disse que ele e líderes no Congresso estão trabalhando em um plano voltado aos "riscos sistêmicos" nos mercados de capitais do país e para lidar com problemas com ativos em instituições financeiras.
– Nós conversamos sobre uma abordagem abrangente que irá requerer uma legislação para lidar com ativos no balanço de instituições financeiras – disse Paulson a jornalistas.
O líder da maioria no Senado, Harry Reid, um democrata de Nevada, disse esperar por uma proposta "em questão de horas, não dias".
– Nós estamos ansiosos para trabalhar juntamente com o Congresso para resolver essa crise financeira e fazer com que nossa economia volte a andar – disse o chairman do Federal Reserve, o banco central norte-americano, Ben Bernanke.
Bancos centrais
Os bancos centrais do mundo continuaram o esforço nesta sexta-feira para desafogar os mercados abertos, injetando mais dinheiro mesmo com a valorização de ações e do dólar em resposta a um plano emergencial nos Estados Unidos para limpar o mercado de débitos podres.
Países como Japão, Austrália, Índia e Indonésia injetaram mais de 42 bilhões de dólares em seus mercados, já que dinheiro continuava difícil de ser encontrado, apesar da ação sem precendentes de quinta-feira, coordenada pelo Federal Reserve dos Estados Unidos, que colocou no sistema 180 bilhões de dólares.
Na Europa há sinais de que o estresse está se abrandando. O custo de empréstimos em dólar no overnight caiu de volta à meta do Federal Reserve, de 2%, em comparação com a taxa interbancária apresentada em Londres na quinta-feira, de 3,84375%.
O Banco da Inglaterra ofereceu 40 bilhões de dólares para os bancos, mas somente metade disso foi retirado, apesar deste valor ter sido levemente superior ao da retirada de quinta-feira, quando a oferta foi idêntica.
O Banco Central Europeu (BCE) também ofereceu outros 40 bilhões de dólares. As ações européias se valorizavam fortemente, com o índice FTSEurofirst 300 em alta de 6,91%, por volta das 8h52 (horário de Brasília). O setor bancário respondia pelas maiores valorizações.
Nos Estados Unidos, o Tesouro anunciou na noite de quinta-feira o plano de criar um fundo que irá acabar com dívidas de difícil negociação, que têm estado no centro da crise de crédito, similar ao plano que ajudou a resolver a crise de poupanças e empréstimos do final dos anos 1980.
– No momento, confiança é o fator mais importante e isso só será mantido se os planos de resgate acontecerem em ambos os lados do Atlântico – disse Andrew Turnbull, diretor sênior de vendas da ODL Securities.
A Grã-Bretanha, na quinta-feira, impôs uma proibição temporária de vendas à descoberto de ações financeiras.
A Securities and Exchange Comission (SEC), a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, seguiu os mesmos passos e determinou, no início da manhã desta sexta-feira, que a venda à descoberto de 799 ações do setor financeiro deve ser suspensa no país a partir desta sexta-feira. A medida será interrompida em 2 de outubro, mas pode ser estendida em 10 dias caso necessário.
Dólar em alta
O dólar fechou a quinta-feira em alta de quase 3%, depois de desacelerar assim que o Banco Central anunciou que vai "emprestar" moeda norte-americana ao mercado para combater a escassez de crédito diante da forte turbulência internacional.
No fechamento, a divisa foi cotada a 1,921 real, maior patamar em um ano, com avanço de 2,89%. O mercado futuro, entretanto, já apontava o dólar mais brando na sexta-feira.
Durante a sessão, a moeda norte-americana chegou a saltar mais de 5 por cento e alcançou 1,961 real.
– Os canais de transmissão de uma crise internacional são o crédito e o câmbio – afirmou Nathan Blanche, sócio-diretor da Consultoria Tendências e especialista em câmbio.
Segundo ele, os exportadores necessitam de tais linhas para pagar "um mundo de despesas", mas a crise global secou essas fontes de financiamento em moeda estrangeira. A crise mundial já fez o dólar subir quase 23 por cento desde o início de agosto.
Ainda assim, o fluxo cambial para o país continuava positivo nos primeiros dias de setembro, indicando que não havia falta de liquidez no mercado físico mas sim um forte movimento nas operações derivativas.
Pelos dados mais recentes da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), os estrangeiros mantinham mais de 6,7 bilhões de dólares em posições compradas em derivativos cambiais nesta semana revelando, com isso, uma forte aposta contra o real.
A corretora Concórdia ponderou que, nos últimos dois dias, o dólar acabou subindo com volume consistente, o que mostra uma saída de recursos.
– Isso é um resultado da falta de linha de crédito (para exportadores). Se tem uma forma que resolve isso é a operação compromissada do Bacen. Sem dúvida dá uma acalmada – comentou Marcelo Voss, economista-chefe da corretora Liquidez.
Leilões do BC
Diante desse cenário, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, anunciou que serão feitos leilões de venda de dólares ao mercado com compromisso de compra futura. As operações serão feitas com a frequência que o BC considerar necessária.
Analistas já esperavam que o Banco Central viesse a atuar para suprir a falta de linhas de crédito, trabalhando como um "intermediador".
– Acho uma intervenção muito bem-vinda... Quem falou que (a crise externa) ia ser imperceptível, não sabia o que estava dizendo. O que se falou, e isso corretamente, é que a repercussão sobre o Brasil vai ser muito menos grave do que seria no passado, quando o Brasil tinha uma vulnerabilidade externa muito maior – disse Joel Bogdanski, consultor de análise econômica do Itaú.
Proibição de vendas à descoberto eleva papéis da financeiras em 40%
Sexta, 19 de Setembro de 2008 às 08:21, por: CdB