Um professor de Harvard está causando polêmica com um livro que afirma que o afluxo de imigrantes mexicanos ameaça a identidade norte-americana e a unidade nacional. O livro "Who We Are: Challenges to American National Identity" (Quem Somos: Desafios à Identidade Nacional Americana), de Samuel Huntington, só deve ser publicado em maio, mas um trecho veiculado na revista Foreign Policy teve grande repercussão, que ultrapassou os círculos acadêmicos.
O ponto central do argumento de Huntington é que a imigração em larga escala para os EUA de nativos de países latino-americanos, especialmente o México, aliada à alta taxa de fertilidade dos recém-chegados se comparada com a dos norte-americanos "naturais", constitui a maior e mais imediata ameaça à cultura "anglo-protestante" tradicional do país.
A tese foi muito questionada por outros sociólogos, que puseram em dúvida tanto seus dados como seus motivos. Huntington chamou a atenção do mundo com seu livro "O Choque das Civilizações" (em português pela editora Objetiva), em 1993, no qual previa que a globalização levaria a conflitos entre os "valores ocidentais" e o mundo islâmico.
Em sua nova obra, Huntington afirma: "A extensão e a natureza dessa imigração difere fundamentalmente das imigrações anteriores, e os sucessos de assimilação do passado não devem se repetir com o fluxo contemporâneo de imigrantes".
"Essa realidade coloca uma pergunta fundamental: os Estados Unidos vão continuar a ser um país com uma única língua nacional e uma cultura anglo-protestante? Ao ignorar essa questão, os norte-americanos concordam com sua transformação final em dois povos com duas culturas (anglicana e hispânica) e duas línguas (inglês e espanhol)".
Mais de 11 milhões de imigrantes chegaram aos Estados Unidos na década de 1990, e o Censo estima o fluxo desde então em 1,4 milhão por ano. Os imigrantes estão presentes em números significativos em praticamente todos os Estados.
Irresponsável
"O argumento dele não tem credibilidade e é irresponsável", disse Richard Alba, sociólogo da Universidade Estatal de Nova York, em Albany.
Não tem credibilidade, afirmou, porque Huntington ignorou dados que mostram que a segunda geração de norte-americanos de origem mexicana adotou o inglês como sua língua dominante. Na terceira geração, muitos falam apenas inglês.
E irresponsável, disse, porque a alegação de que os mexicanos estão formando um corpo estranho dentro dos Estados Unidos é "incitatória e capaz de gerar discriminação, além de falsa". "É só olhar para o número de americanos de origem mexicana lutando e morrendo em nossas Forças Armadas no Iraque", afirmou.
"Sempre houve preocupações de que os imigrantes não seriam assimilados. Elas sempre se mostraram infundadas", disse Lisa Navarrete, vice-presidente do Conselho Nacional de La Raza, um grupo que atua contra a discriminação contra hispânicos. "Sempre houve uma marca de ressentimento nesses argumentos, e ela também existe nesse artigo", afirmou ela.
O sociólogo Victor Nee, da Universidade Cornell, afirmou que 20 anos de dados parecem mostrar que os mexicanos estão se adaptando bem, numa velocidade talvez um pouco menor que os outros imigrantes. "Eles estão se movendo rapidamente em direção a ser proprietários de suas casas. A segunda geração está partindo rapidamente para o inglês e recebe educação melhor que seus pais".
Huntington expressou a preocupação de que a concentração de mexicanos em Estados de fronteira, que um dia já fizeram parte do México, possa criar um enclave étnico no estilo de Quebec, no Canadá.