Rio de Janeiro, 24 de Abril de 2026

Produtos possíveis de um mundo que não se vende

Por Katarina Peixoto - Por que diabos estamos em Caracas? Porque isso que está ocorrendo aqui faz sentido, seja para quem está pronto para lutar contra o império, o belicismo e a 'comédia liberal' do privilégio do individualismo, seja para quem toda forma de poder gera coceira e mal estar. (Leia mais)

Quinta, 26 de Janeiro de 2006 às 17:26, por: CdB

Por que diabos estamos em Caracas? Porque isso que está ocorrendo aqui faz sentido, seja para quem está pronto para lutar contra o império, o belicismo e a "comédia liberal" do privilégio do individualismo, seja para quem toda forma de poder gera coceira e mal estar.

Há uma experiência extraordinária em curso na Venezuela. Como experiência política e histórica, os acontecimentos protagonizados pela chegada de Chávez ao poder ultrapassam a idéia de que está em curso a execução de um programa revolucionário de governo popular, levada a cabo por forças partidárias. É uma "revolução feita a fórceps", ainda que sem o uso da força, mas com uma verticalização evidente e reluzente. Tanto os avanços como os limites desse processo convergem de maneira privilegiada com as tentativas de agenda e também com as críticas ao processo "bolivariano" dentre as organizações do Fórum.

Se a tensão entre organizações que dirigem o FSM está privilegiadamente explicita, aqui, é o caso de se perguntar o que diabos ou por que diabos é neste lugar que estamos. A cidade de Caracas é hoje um dos maiores símbolos de resistência antiimperialista no planeta. É um símbolo em sentido forte, exatamente porque aqui em Caracas a luta contra o império tem um caráter prático, expresso em escolhas políticas e administrativas feitas pelo governo Chávez, em direção de uma imensa população de depauperados e esquecidos.

Os resultados dessa experiência já são muitos e as inquietações que esse processo vem gerando, idem. Em primeiro lugar, está em curso, sem qualquer otimismo, uma política de assistência, distribuição, subsídio e reformas, nas áreas da economia popular, educação (a erradicação do analfabetismo não é miragem), saúde, que configuram uma novidade irredutível e inconteste, no continente latino-americano. Nenhum dos governos do continente fez escolhas tão nítidas como esse. Em segundo lugar, os frutos dessas escolhas dão o que pensar e o que preocupar, seja por conta da presença isolada de Chávez como líder único, seja em virtude da natureza da verticalização que essa presença implica.

Dentre as organizações autonomistas do processo do Fórum, a experiência Chávez é fonte de uma espécie de alergia congênita. Tudo se passa como se o extraordinário que está ocorrendo fosse uma versão "do que o poder faz com a esquerda", ou vice-versa. Essa "alergia", que se quer teórica e política (por mais que se esmere em negar a Política), aparece de maneira predatória e manipuladora em coberturas da grande mídia brasileira (sendo o caso mais exemplar o trabalho lamentável da Folha de São Paulo), que se utiliza da fragilidade dessa posição para tentar desmoralizar a crítica ao fatalismo financista e beligerante que assola o mundo, hoje. Ocorre que não estamos em Caracas por acaso, que as inúmeras e diárias "excursões" aos bairros pobres da cidade, para conhecer o que o governo está fazendo, por parte de delegações européias, latino-americanas e norte-americanas, tampouco se devem aos atrativos turísticos ou à presença de cachoeiras limpas nos altos das favelas que circundam a cidade.

O caráter que se quer teórico da critica à verticalização do processo bolivariano se escora numa espécie de muro retórico que atende pelo nome de sociedade civil. Ocorre que, pelo menos teoricamente - e a história não é descartável em posições teóricas consistentes - a presença de uma sociedade civil organizada e ativa deriva do Estado e não vice-versa. Onde há sociedade civil organizada, pelo menos no planeta Terra, há ou houve Estado, não um bicho papão, mas uma estrutura normativa de autoridade que, com maior ou menor apropriação privada pelos grupos dominantes, na modernidade, é formalmente pública. A sociedade civil, por outro lado, dessa estrutura deriva, histórica e teoricamente. É preciso dizer que a resposta, que parte da sociedade civil, à estrutura de dominação congênita do Estado decorre então de duas coisas: a individualidade subjetiva - uma aq

Tags:
Edições digital e impressa