Quando "Fahrenheit 11 de Setembro" foi selecionado para competir no Festival de Cinema de Cannes, já havia outro documentário sobre George W. Bush esperando, caso o filme de Michael Moore não ficasse pronto em tempo.
"Os organizadores queriam incluir nosso filme na seleção oficial, mas acharam politicamente incorreto ter dois documentários anti-Bush competindo em Cannes", disse Jean-François Lepetit, cuja produtora Flach Film fez "Le Monde Selon Bush" (O Mundo Segundo Bush).
Dirigido pelo experiente documentarista William Karel, o filme de 90 minutos dificilmente poderia ser mais diferente de "Fahrenheit", com o qual Moore ganhou a Palma de Ouro. O estilo de Karel é sóbrio, abrindo mão do humor em favor de entrevistas sérias.
"Le Monde" é um ataque intransigente aos primeiros 1.000 dias de Bush no poder. O filme apresenta supostos vínculos da família Bush com as indústrias armamentista e petrolífera.
Feito originalmente para a emissora pública francesa France 2, "Le Monde Selon Bush" estreou na televisão na sexta-feira passada, mas, em uma iniciativa incomum, foi lançado nos cinemas franceses nesta quarta-feira. "Queríamos proporcionar a ele um público maior", explicou Lepetit.
Inspirado pelos dois livros do jornalista e escritor Eric Laurent sobre a administração Bush, "Le Monde" é o quinto filme de Karel a analisar o poder político norte-americano.
O diretor suíço nascido na Tunísia insiste que adora os EUA, mas afirma que decidiu fazer o filme "porque é uma história mais estranha do que qualquer ficção".
Tendo passado mais de oito meses combatendo o "véu de segredo" que cerca os detentores do poder nos EUA, Karel conseguiu 26 entrevistas detalhadas com personalidades que incluem o secretário de Estado Colin Powell, o neoconservador Richard Perle, os ex-diretores da CIA James Woolsey e David Kay, o escritor Norman Mailer, acadêmicos e jornalistas.
"Fiquei espantado com a disposição de algumas pessoas em ser entrevistadas logo depois de deixarem o governo, quando deixavam de ser obrigadas a respeitar as leis do sigilo", comentou Karel.
O filme, que custou 500 mil euros (605 mil dólares), cobre muitos tópicos, inclusive como o "lobby israelense da direita cristã" influencia e influenciou a política norte-americana no Oriente Médio e como os ataques de 11 de setembro proporcionaram a Bush sua razão de ser.
Ele fez sua "cruzada" contra o terrorismo, usou o "falso pretexto" sob o qual foi travada a segundo guerra do Iraque e a "grande mentira" que vinculou Saddam Hussein ao 11 de setembro.
O filme ilustra como Bush pai, primeiro como vice e depois como presidente, entre 1988 e 1992, armou e financiou Saddam Hussein. Também são examinadas as supostas ligações entre a família Bush, o clã Bin Laden e a Arábia Saudita.
Karel insiste que seu filme não é uma diatribe francesa contra os Estados Unidos, e sim uma coletânea de depoimentos de testemunhas oculares norte-americanas que viveram essa época.
"Pensar que o presidente Richard Nixon sofreu o impeachment por causa de três fitas!", diz Karel.
Ele espera que seu filme seja visto nos Estados Unidos. "Nenhum dos meus filmes até agora chegou aos EUA, mas tenho esperanças de que este o faça."