A Justiça do Rio de Janeiro iniciou, nesta segunda-feira, o julgamento do primeiro acusado de participar da Chacina da Baixada Fluminense, como ficou conhecido o crime que envolveu a morte de 29 pessoas em Queimados e Nova Iguaçu, municípios da região, em março do ano passado. O soldado da Polícia Militar Carlos Jorge Carvalho pediu para ir a júri popular separadamente dos outros quatro réus e teve seu pedido aceito pelo Tribunal do Júri de Nova Iguaçu.
Ele é acusado de 29 homicídios triplamente qualificados, uma tentativa de homicídio e formação de quadrilha. Os outros quatro policiais militares acusados dos mesmos crimes, Marcos Siqueira Costa, José Augusto Moreira Felipe, Fabiano Gonçalves Lopes e Júlio César Amaral de Paula, ainda não têm julgamento marcado. Mas, segundo o promotor responsável pelo caso, Marcelo Muniz, eles devem ser julgados no prazo de dois meses.
Muniz explica que o julgamento de Carlos Jorge Carvalho é importante por ser o primeiro e pode, inclusive, influenciar o resultado do júri dos outros quatro acusados.
- Até pelo desencadeamento lógico do processo, ele tem influência sobre os demais. Há uma lógica de um grupo, que participou (da chacina), que tem, como um dos integrantes, Carlos Carvalho - disse.
O promotor disse que o Ministério Público usará recursos audiovisuais durante o julgamento para tornar o crime mais fácil de ser compreendido pelo júri.
- A gente vai usar recursos visuais, como um documentário sobre a chacina, exibido no exterior, fitas e um datashow, expondo dados da investigação e provas periciais de uma forma mais didática - afirmou Muniz.
Outros dois policiais militares, inicialmente denunciados como participantes da chacina, serão julgados apenas pelo crime de formação de quadrilha, por suposto envolvimento com os cinco acusados.
Crime
Na noite de 31 de março de 2005, criminosos mataram a tiros 29 pessoas e feriram outra em diferentes pontos de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense. Onze PMs foram acusados. Cinco deles permanecem presos, e quatro foram liberados por falta de provas.
Os soldados da PM Carlos Jorge Carvalho, o Carlinhos ou Carlos Cavalo, Fabiano Gonçalves Lopes e Júlio César Amaral de Paula e os cabos Marcos Siqueira Costa e José Augusto Moreira Felipe respondem por 29 homicídios qualificados --por motivo torpe e recurso que impossibilitou a defesa das vítimas--, uma tentativa de homicídio e formação de quadrilha.
Outros dois cabos, Ivonei de Souza e Gilmar Simão, respondem por formação de quadrilha e aguardam julgamento em liberdade.
Os crimes começaram em Nova Iguaçu, com um atirador que seguia a bordo de um Gol branco, de acordo com um sobrevivente da chacina. Os atiradores não tinham alvo definido. Eles usaram armas calibre .40 e 380.
Uma das vítimas foi decapitada e a sua cabeça foi jogada nos fundos do 15º Batalhão da PM, em Duque de Caxias.
Dois inquéritos investigaram a chacina. Eles foram conduzidos paralelamente pelas polícias Civil e Federal. Nenhum dos dois revelou os motivos do crime. A principal hipótese é a de que foi uma represália à operação Navalha na Carne, que resultou na prisão de oito PMs suspeitos do duplo-homicídio.