Primeira fase da investigação sobre morte de Allende levará até uma semana
A primeira etapa do processo de investigação sobre a morte de Salvador Allende, ex-presidente do Chile (1970-1973), vai levar de cinco a seis dias. Só depois dessa fase é que os especialistas definirão a data para a divulgação dos resultados das apurações.
A primeira etapa do processo de investigação sobre a morte de Salvador Allende, ex-presidente do Chile (1970-1973), vai levar de cinco a seis dias. Só depois dessa fase é que os especialistas definirão a data para a divulgação dos resultados das apurações. Depois da exumação, feita nesta segunda-feira, no mausoléu da família no Cemitério Geral de Santiago, serão feitas análises de antropologia e exames de sangue.
A equipe de peritos reúne 11 profissionais de várias áreas, como médicos, antropólogos e biológos, entre outros, sob o comando do Ministério Público e do Serviço Médico-Legal. A ação será acompanhada pela família Allende. A retirada do caixão de Allende foi feita durante uma cerimônia nesta manhã – das 7h30 às 8h40. O caixão estava coberto pela bandeira nacional do Chile.
É a segunda vez que o corpo de Allende é exumado no Chile, a primeira foi em 1990 para receber as honras de chefe de Estado. Porém, é a primeira vez que a Justiça chilena abre um inquérito para investigar as circunstâncias da morte do ex-presidente - último chefe de Estado democraticamente eleito no país antes do golpe militar de 1973.
Para a família Allende, o ex-presidente se suicidou. “O presidente Allende decidiu pelo gesto de morrer por uma questão de coerência política”, disse a senadora Isabel Allende, filha do ex-presidente. “[Apoiamos esta exumação] com a esperança de que os resultados [dos exames] acabem com todas as dúvidas.”
Na sociedade chilena há dúvidas sobre a causa da morte de Allende. Oficialmente, a informação é que ele se matou. Allende morreu há quase 38 anos. O pedido de abertura de inquérito foi feito por Beatriz Pedrals, da Justiça Fiscal, e as investigações serão comandadas pelo representante do Ministério Público do Chile, ministro Mario Carroza.
Allende morreu em 11 de setembro de 1973, quando as forças do general Augusto Pinochet invadiram a sede do governo, o Palácio de La Moneda, onde estava o então presidente. Durante o golpe militar, a informação divulgada sobre a morte de Allende era que ele se matou com um tiro.
O caso do ex-presidente está entre 726 processos envolvendo vítimas de violação de direitos humanos durante o período militar no Chile – de 1973 a 1990. A ditadura do ex-presidente Augusto Pinochet é considerada por historiadores uma das mais violentas da América Latina.
A versão oficial
Em 11 de setembro de 1973, quando o palácio La Moneda, sede do governo chileno, era bombardeado e cercado por militares, Allende decidiu permanecer até o último minuto em seu lugar. Fez seus companheiros deixarem o prédio, mas alguns dos membros da guarda e da equipe médica decidiram ficar.
O chefe de governo socialista se refugiou em uma das salas, onde foi encontrado por seu médico pessoal, Patrício Guijón, pouco depois de ser morto por uma bala. Segundo o testemunho de Guijón, o presidente disparou um tiro na boca com um rifle que havia sido presenteado pelo líder cubano Fidel Castro.
O corpo foi levado para o Hospital Militar, onde uma autópsia rápida confirmou o depoimento da testemunha. Ele foi, então, enterrado no meio da noite em um cemitério na cidade litorânea de Viña del Mar, a cerca de 130 quilômetros de Santiago, na presença de alguns poucos familiares, que não foram autorizados a ver o corpo.
Independentemente da sua veracidade, há argumentos de que o suicídio teria servido os interesses do governo militar, enquanto a teoria de que o presidente foi assassinado contribuiria para fortalecer a oposição, que apresentou este crime como um poderoso argumento na luta contra a ditadura de Augusto Pinochet.
Questões em aberto
Pamela Pereira, advogada da família Allende, defendeu que não se pode confiar em uma autópsia realizada sem as necessárias condições médicas e científicas e na presença de oficiais militares. A grande questão é saber se hoje, 37 anos após a morte, é possível aos legistas fazer uma investigação que forneça resultados confiáveis.
Em 1990, o corpo de Allende foi exumado para ser transferido para o mausoléu da família, no cemitério de Santiago, e receber um funeral com honras de Estado para um ex-presidente. Nesta segunda-feira, uma equipe de chilenos e estrangeiros desenterrou os restos mortais para tentar descobrir a chamada verdade histórica e legal sobre a causa da morte.
O médico Marcel Verhoff, o Instituto de Medicina Legal da Universidade de Giessen, na Alemanha, especialista em análise em diferentes períodos post mortem, diz que é muito importante saber se foram tomadas medidas de conservação do corpo em 1973 e as condições em que os restos mortais foram depositados no mausoléu em 1990. Sabe-se que o corpo se apresentava em estado de esqueleto e que teve seu volume reduzido para a colocação no túmulo novo.
Exames complementares
"Se os ossos do crânio ainda permanecem completos, mesmo depois de 37 anos as lesões correspondentes devem ser verificáveis, e as lesões ósseas resultantes de um tiro na boca também ainda podem ser bem visíveis no crânio ou no restante do esqueleto", explica o professor Verhoff.
– Quanto mais partes do corpo estiverem disponíveis, mais conclusões podem ser tiradas. Em particular, neste caso, exames complementares, como uma tomografia computadorizada podem ajudar uma investigação mais aprofundada – acrescenta.
Não está claro quanto tempo esta investigação deve levar. O especialista avalia que os estudos macroscópicos podem ficar prontos dentro de alguns dias, embora outros possam vir a ser necessários, como tomografia computadorizada, histologia, microscopia eletrônica de varredura e testes de toxicologia.
Para assegurar os melhores resultados, Verhoff indica que "em qualquer caso, o ideal seria ter uma equipe multidisciplinar composta por peritos forenses, antropólogos, arqueólogos, radiologistas, toxicologistas e criminologistas". Além disso, "a investigação deve ser devidamente documentada, para que os resultados e as conclusões finais sejam confiáveis??", recomenda o legista.
Olhar para o futuro
Para o professor Stefan Rinke, do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim, a busca pela verdade é um processo indispensável.
– É um passo necessário, tendo em conta as emoções dos membros da família, que querem saber o que aconteceu, e também de toda a sociedade chilena, que tem fortes sentimentos a respeito do presidente Allende – diz.
Rinke indica que dissipar as dúvidas neste caso é tão importante quanto em outros menos conhecidos, que nunca foram encerrados.
– Acho que é algo absolutamente necessário, para obtermos a liberdade de viver o futuro. Estou convencido que, pelo menos, tem que ser estabelecida a verdade histórica, especialmente em matérias tão discutidas como a morte de Allende, que gera tantos rumores. Para a paz interna de um país, isso é necessário – observa o professor Rinke.
A lembrança da morte de Allende traz à mente eventos que no Chile não foram completamente encerrados e ainda geram conflitos. Ela ocorreu em um contexto de extrema violência que marcou o início de um período de ditadura de 17 anos. Por isso, o professor Rinke lembra que é preciso tempo para a sociedade chilena assumir esses fatos.
– O período de 20 anos que decorreu desde o retorno à democracia no Chile ainda é curto. Pelo menos durante uma geração ainda vamos discutir esse caso – acrescenta.
As informações sobre a exumação de Allende são da rede chilena de TV TVN.
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