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A propostaque hoje principiarei a esboçar pouco tem a ver com outras que foram surgindoao longo dos últimos trinta anos, mesmo com as sugestões que eu próprio já fiznestas crônicas acerca da interpretação, das formas de acolhimento prático(recepção) e do futuro do acontecimento mais marcante da Igreja Católica noséc. XX, o concílio Vaticano II (1962-1965). Dada a velocidade com que agoratudo acontece, esse acontecimento talvez já pouco ou nada signifique para ospróprios católicos com menos de 40 anos. É, no entanto, por causa das novasgerações, católicas ou não, que é importante não nos deixarmos atolar nasdificuldades presentes.
É normal queno contexto das próximas evocações, estudos, balanços e desenhos deperspectivas futuras em torno dos 50 anos da convocatória dessa assembleiageral, feita pelo Papa João XXIII, a 25 de Dezembro de 1961, reapareça oconfronto entre as tendências que desejam e aquelas que recusam um novoconcílio. Na situação atual, basta que o papa se pronuncie num ou noutro sentido,para saber a escolha que prevalecerá. A democracia na Igreja - a convicção de"aquilo que diz respeito a todos deve ser tratados por todos” – encontra quasesempre sofismas e preguiça para ser desencorajada. Por outro lado, os regimesdemocráticos andam tão cansados que até invejam os resultados econômicos daChina totalitária. Mas valerá a pena preparar um novo concílio ecumênico quandoainda estamos tão longe de ter assimilado o que há de melhor no VaticanoII?
Não são objetivo incompatíveis, antes pelo contrário. Terá de ser, porém,verdadeiramente novo e com características de universalidade que exceda tudo oque aconteceu no passado. Cinquenta anos de experiências e conquistas, comluzes, sombras e pesadas derrotas, podem ser inspiradores para entrar numprocesso de descoberta e reconfiguração de uma estrada larga por onde todos osseres humanos do nosso tempo, de todas as culturas, possam caminhar sem seatropelarem uns aos outros.
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É urgentecomeçar. Gordon Brown, ex-primeiro-ministro do Reino Unido, num artigo recente(DN, 09.09), tem a convicção de que poucas pessoas duvidam do seguinte: hoje omundo está à deriva, sem rumo e sem liderança, na direção de uma segundarecessão. A política do desenrasque falhou. Com a incapacidade de concluir umacordo global, um acordo sobre políticas climáticas, um pacto de crescimento oualteração no regime financeiro, o mundo tende a descer para um novoprotecionismo de desvalorização competitiva, guerras de moeda, restrições aocomércio e controle de capitais.
Segundo G.Brown, feitas as contas verifica-se que, por agora, a América e a Europa nãopodem expandir os seus gastos de consumo sem aumento de exportações e a China eos mercados emergentes não podem facilmente expandir a sua produção ou consumosem a garantia de mercados ocidentais fortes. Torna-se indispensável restauraruma visão ampla de cooperação global contida no pacto de crescimento do G20 querepresenta 80% da produção mundial. Sendo o único organismo multilateral capazde coordenar a política econômica global tornou-se extremamente útil em 2009.Infelizmente, os Estados membros abandonaram rapidamente esse objetivo epassaram para soluções nacionais. Como era previsível, avançar sozinho provouser inútil para garantir a recuperação econômica. Chegou novamente a vez daurgente intervenção do G20.
Em relação aPortugal, o economista José Castro Caldas é de opinião que, sem um portentosomilagre, o roteiro traçado pelo governo português para nos salvar é o caminhomais direto para nos perder (Público, 13. 09). Sem uma mudança urgente naorientação da Europa são previsíveis grandes turbulências e até o fim daprópria união europeia. O governo português, para além das medidas que terá deassumir – os países não podem fechar as portas para obras - deveria empenhar-secom ardor nessa viragem e com mais cautelas na perigosa façanha de ultrapassaras exigências da troika para conseguir os empréstimos do "vil e mentirosodinheiro”.
Poderia, semdúvida, ter escolhido outras referências, para chamar a atenção para estabanalidade: o mundo anda sem rumo, sem liderança, à deriva. Não só no plano daeconomia dominado pelos jogos da finança, em mercados sem regras e exigênciaséticas, sem preocupações humanas. Sem lideranças que procurem o "bem comum detoda a humanidade”, andaremos como ovelhas sem pastor, na linguagem bíblica dapastorícia, devorados pela insaciável "era da ganância”.
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A questão defundo é, todavia, outra: não é possível encontrar caminhos de convergênciauniversal sem "mudar de paradigma”, sem procurar integrar antigas e novassabedorias nas famílias, nas escolas na sociedade, nas políticas, uma sabedoriaholística. Não para desvalorizar os caminhos das ciências e os serviços dasnovas tecnologias, mas para resistir às suas tentações reducionistas. O serhumano é multidimensional. Não pode ser amputado das suas raízes nem dossonhos.
Como poderáum novo concílio convocar os seres humanos para a redescoberta do simbólico, douniverso dos laços com tudo e com todos? Veremos.
[Fonte: Público pág. 61].