Mia Couto: "Tenho com os prêmios uma relação de distância, não de arrogância"
O escritor moçambicano Mia Couto conquistou a 25ª edição do Prêmio Camões, um dos mais importantes prêmios literários da língua portuguesa. No ano passado o prêmio foi atribuído ao escritor brasileiro Dalton Trevisan e, em 2011, ao escritor português Manuel António Pina. Mia Couto disse à agência portuguesa de notícias Lusa, nesta quarta-feira, que ficou surpreso ao saber que tinha sido escolhido:
– Não esperava nunca uma coisa destas. Tenho com os prêmios uma relação de distância, não de arrogância, mas pensando que não vale a pena olhar para eles porque a gente trabalha por outra razão, que são outros prêmios mais importantes que este.
Autor de 23 livros, entre romances, contos, poesia e obras infantis, Mia Couto carimba sua escrita com marcas próprias. Destaca-se principalmente pela criatividade na linguagem: usa misturas e outras formas que a língua de Camões pode ter, principalmente no jeito moçambicano. O seu estilo fantástico conduz o leitor a várias dimensões, embora retratando questões sociais demasiado terrenas.
– Penso que um escritor que começa a piscar o olho aos prêmios fica cego, sem olho como o Camões – disse Mia Couto.
E é com os dois olhos atentos que o moçambicano observa, já há algum tempo, Ngungunhana, último imperador de Gaza, no sul de Moçambique. Na verdade, mais do que isso: Couto explora a história do rei já pensando em seu próximo livro. Mia Couto abre um pouco a porta do processo de “gestação” da nova obra: "É sobre um personagem histórico da nossa resistência nacionalista, Ngungunhana, que foi preso por Mouzinho de Albuquerque [militar português conhecido por subjugar populações locais moçambicanas à administração colonial portuguesa] e depois foi conduzido para Portugal e acabou por morrer nos Açores".
Segundo o autor, há "uma espécie de tragédia à volta desse herói, que foi mais inventado do que real e que precisa ser retratado."
Decisão elogiada
De acordo com o júri, a escolha do premiado se deve à "vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e a profunda humanidade". O escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana acredita que Couto tem uma obra de "qualidade e volume" e que "não deixou nunca de experimentar novos caminhos, não se encostou a qualquer zona de conforto que tivesse já conquistado". Diversos escritores lusófonos manifestaram apoio à escolha do júri.
– A atribuição é perfeitamente merecida, este ano eu creio que o prêmio deveria ter sido atribuído a um escritor africano. Mia Couto é um grande escritor, parece-me perfeitamente justificado – declarou Vasco Graça Moura, um dos principais nomes da literatura portuguesa atual.
João Ubaldo Ribeiro, brasileiro ganhador do Prêmio Camões em 2008, disse que Mia Couto "é, sem dúvida, um dos escritores mais importantes da língua portuguesa, e esse prêmio é o reconhecimento que sua obra já há tempo faz por merecer".
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