O novo primeiro-ministro do Haiti viajou no sábado a Gonaives, a caótica cidade onde há seis semanas começou a rebelião que derrubou o presidente Jean-Bertrand Aristide. Lá, ele chamou de ``combatentes da liberdade'' a gangue esfarrapada que liderou a revolta.
Gerard Latortue pousou em um helicóptero Black Hawk do Exército norte-americano em um campo de futebol, onde foi saudado por cerca de 2.000 pessoas. Outro helicóptero e um bimotor, ambos dos EUA, escoltavam a comitiva.
Latortue, um economista de 69 anos, foi nomeado por um conselho de haitianos ilustres para ocupar interinamente o governo depois da queda de Aristide, em 29 de fevereiro. Ao chegar a Gonaives, sua cidade natal, ele recebeu uma chave de madeira que cheirava a verniz.
``Nos EUA, eles achavam que as pessoas de Gonaives eram brutamontes e bandidos'', disse ele a jornalistas na cidade, a quarta maior do país. ``Mas eles são combatentes da liberdade.''
Os rebeldes de Gonaives, a maioria ligada a uma gangue de rua chamada ``Exército Canibal'', outrora simpatizante de Aristide, não depuseram suas armas aos pés de Latortue, como haviam prometido.
Mas o primeiro-ministro disse que seus líderes voltaram a prometer que vão se desarmar no momento oportuno. Guy Philippe, um ex-policial que lidera os rebeldes, disse que seus homens não podem entregar as armas enquanto não houver garantias de segurança pública.
``Hoje é um dia muito importante para nós. Marca oficialmente o fim das hostilidades'', disse Philippe à Reuters. ''Queremos entregar as armas, mas não há polícia.''
Latortue foi conduzido por Gonaives - cidade onde outra revolta, de escravos, levou ao fim do colonialismo francês em 1804 - numa tumultuada carreata. Milhares de pessoas saíram de seus barracos para aplaudir, gritar e acenar.
Motonetas e bicicletas seguiram o comboio, junto com carros buzinavam. Alheios a isso, porcos e cabras buscavam comida em meio ao lixo e ao esgoto. A segurança do primeiro-ministro foi feita pela polícia e por rebeldes vestidos de paletó e gravata.
Latortue subiu ao palanque diante de milhares de pessoas na praça principal da cidade, de 200 mil habitantes, e agradeceu a população por ter derrotado ``o ditador Aristide''. Ele aproveitou para apresentar vários novos membros de seu gabinete.
Ao apontar o ministro do Interior, Herard Abraham, um ex-general que defende, como os rebeles, a recriação do Exército, as pessoas gritavam ``Prenda Aristide''.
Tendo como cenário um mural com heróis da independência, Latortue prometeu construir hospitais, estradas e até um estádio, além de levar água encanada para as favelas da cidade. ''Eletricidade também. Queremos telefones também'', reagiu a multidão.
Buter Metayer, o líder da gangue que iniciou a revolta contra Aristide em 5 de fevereiro, disse antes da cerimônia que a luta acabou e que agora ele pretende tirar férias nos EUA. ''Vou dar a ele Latortue todas as armas que temos em Gonaives'', afirmou.
``É um dia feliz para o Haiti'', disse Dorsavil Thilemon, 23. ''Esperamos que a paz e o desenvolvimento cheguem a Gonaives. Espero que todos possamos conviver agora.''