A pintura que humanizava a Cidade foi destruída por latas de tinta aplicadas por ordem da Prefeitura do Rio
Uma equipe de limpeza da Prefeitura do Rio apagou, propositalmente, nesta terça-feira, o grafite que coloria uma das colunas do Viaduto Santiago Dantas, em Botafogo, Zona Sul do Rio. O flagrante, feito por uma fonte do Correio do Brasil, não intimidou os funcionários da Comlurb, que destruíram o trabalho do artista, ainda que anônimo, que havia se disposto a quebrar a monotonia do cinza que voltou a dominar o pilar de concreto.
– Absurdo do desgoverno municipal do Rio – disse a leitora do CdB, que prefere não se identificar.
Ela estava passando pela praia de Botafogo próximo à Igreja Imaculada Conceição quando olhou para o viaduto que segue para a Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, e assistiu comovida à cena:
– Quatro trabalhadores da Comlurb "limpavam" uma das colunas de sustenção do viaduto, apagando uma das grafritagens mais bonitas e coloridas feitas por artistas anônimos. Atravessei a rua e fui saber o porquê de estarem apagando uma das manifestações culturais mais louváveis, que têm o intuito de deixar a cidade mais humana. Simplesmente, o encarregado disse, sem se importar: "mandaram apagar – relata a fonte.
Segundo o funcionário, "para grafitar, tem que pedir autorização da prefeitura", pois aquela era "uma parede pública".
– Argumentei, então, que o desenho era bonito e embelezava a coluna branca: "Mas, meu senhor, é uma obra de um artista de rua. A grafitagem é bonita e não está fazendo apologia a drogas etc... Só embeleza a cidade", eu disse – relata.
Diante da indiferença do burocrata de plantão, a leitora não se conteve:
– Ponderei de novo: "a cidade precisa de cuidados meu senhor, as ruas estão sujas, algumas cheias de lixo entre outras coisas. A prefeitura tem que cuidar de outras coisas mais sérias e não ficar aqui perdendo tempo com trabalhadores o dia inteiro para apagar com uma obra de arte de um artista de rua" – disse, sem conseguir sensibilizar os funcionários da Prefeitura do Rio.
Se, na década de 80, os prefeitos que administraram o Rio tomassem medida semelhante, o reverenciado artista plástico José Datrino, mais conhecido como profeta Gentileza, simplesmente não existiria. Ele foi uma personalidade urbana carioca, que se tornou conhecido por fazer inscrições peculiares sob um viaduto situado na Avenida Brasil, na zona portuária do Rio de Janeiro, onde andava com uma túnica branca e longa barba.
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