Além disso, a administração pública pode renovar a permissão para que táxis circulem nas pistas exclusivas
12/07/2011
Michelle Amaral
da Redação
A Secretaria Municipal de Transportes (SMT) de São Paulo não cumprirá a meta de construção de corredores de ônibus até o final da gestão do prefeito Gilberto Kassab (sem partido), em dezembro de 2012.
O anúncio foi feito no dia 30 de junho pelo secretário de Transportes, Marcelo Cardinale Branco. Segundo ele, apenas um terço dos 66km previstos será entregue até o final do ano que vem.
Somente serão construídos os corredores da Radial Leste – que liga o centro da capital à zona leste – com 14 km de extensão, e da avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini (zona sul), com 3 km.
Branco também informou que não terá como concluir a construção do corredor que ligaria a região do Jardim Ângela (zona sul) à Vila Sônia (zona oeste) no próximo ano devido à complexidade do projeto e à necessidade de desapropriações. As obras deste corredor serão apenas iniciadas.
Já os projetos de construção dos corredores da Cidade Tiradentes e de M'Boi Mirim foram abandonados pela SMT. De acordo com a secretaria, nos dois locais serão pensadas outras formas de transporte a serem assumidos pelo governo do estado, como o monotrilho.
O engenheiro e consultor de trânsito Horácio Augusto Figueira lamenta a notícia da Secretaria Municipal de Transportes. Segundo ele, o anúncio mostra que, além de não construir novos corredores, também não serão tomadas outras atitudes que poderiam melhorar a situação do transporte coletivo na cidade. “Nem faixa exclusiva, que não precisa de mais nada além do que pintar a rua, colocar cones e sinalizar, a secretaria vai fazer”, alega Figueira.
Priorização
Para o consultor de trânsito, as decisões da administração pública reafirmam a priorização do transporte individual em detrimento do transporte público. “Por que temos na [avenida] 23 de maio 5 faixas para veículos e nenhuma para ônibus? E dez [faixas] na Marginal [Tietê] para carros e nenhuma para ônibus?,” indaga.
A ampliação das pistas da Marginal, finalizada em maio de 2010, custaram aos cofres públicos R$ 1,75 bilhão, 75% a mais do que o estimado no início do projeto em 2008. O aumento de custos refere-se à inclusão de serviços que não foram previstos pela empresa responsável pela obra, a Desenvolvimento Rodoviário S. A. (Dersa).
A prefeitura de São Paulo, por sua vez, afirma trabalhar pela priorização do transporte público. No último dia 7 de julho, a Secretaria de Transportes anunciou a criação de um grupo de trabalho para reavaliar a permissão para que táxis circulem nos corredores de ônibus, justamente pela necessidade de se priorizar o transporte coletivo. O grupo de trabalho da SMT deverá apresentar o resultado dos estudos em 40 dias.
Desde agosto de 2005, táxis com pelo menos um passageiro podem circular nos corredores de ônibus. A medida criada durante a gestão de José Serra (PSDB) garantiu uma autorização provisória que poderia ser renovada periodicamente. Nos anos seguintes, a medida foi renovada, e os táxis se mantêm nos corredores de ônibus.
De acordo com Horácio Figueira, a permissão foi concedida de forma indevida, porque fere o princípio de exclusividade dos corredores para os ônibus. “Na verdade, se fez um investimento na construção de uma obra destinada ao transporte coletivo e a liberou para o transporte individual”, explica.
O consultor de trânsito espera que a administração pública decida pela proibição da circulação de táxis nos corredores de ônibus. “Hoje, o que temos são faixas inclusive de ônibus e não exclusivas”, protesta Figueira.
Alternativas
Além da construção de novos corredores, o consultor de trânsito elenca medidas que podem ser tomadas em curto prazo e contribuiriam para melhorar a fluidez dos ônibus. Conforme ele, a SMT pode implantar mais faixas exclusivas, tanto à direita quanto à esquerda em grandes avenidas, com faixa de ultrapassagem para os ônibus; controlar a sinalização semafórica através de sensores que liberariam a passagem com a aproximação dos ônibus; separar duas faixas para os ônibus, nos horários de pico, em algumas avenidas mais movimentadas.
Figueira ressalta a importância de se garantir a fluidez dos ônibus e, para isto, é necessário que eles tenham uma via realmente exclusiva para o tráfego, que não sofra interferências, assim como ocorre no metrô. “Mesmo com a superlotação, a partir do momento em que se fecham as portas, o passageiro tem a certeza do tempo que levará para chegar a seu destino. As pessoas usam o metrô por causa da rapidez, nada interfere na sua velocidade, porque a via é exclusiva dele”, relativiza.
Em fevereiro deste ano, uma pesquisa realizada pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) mostrou que a avaliação positiva dos usuários em relação aos corredores de ônibus teve uma queda de 5% entre 2009 e 2010, indo de 58% para 53%. O que, segundo o presidente da ANTP, Aílton Brasiliense, se explica pelo fato de as pessoas terem uma expectativa maior com relação aos corredores, que foram projetados para garantir uma viagem mais rápida. Se isto não é cumprido, por causa das interferências nas faixas exclusivas, a avaliação cai.
Apesar do anúncio de que os corredores da Radial Leste e da Berrini serão construídos, não há certeza se eles realmente serão finalizados até o final de 2012. No caso do corredor da Radial, o secretário de Transportes disse que “a vontade” é iniciá-lo e terminá-lo no próximo ano, mas enfatizou que o prazo é “bastante apertado”.
Já em relação ao da Berrini, Branco afirmou que será mais fácil entregá-lo, porque se tratará mais de um “disciplinamento das linhas de ônibus”.