A inflação acelerou em maio e deve manter-se em alta nos próximos meses, devido a reajustes de preços administrados e à possibilidade de repasse de preços por conta do maior poder de compra do brasileiro.
Na terça-feira, dados mostraram que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,51 por cento, abaixo das previsões mas acima da alta de 0,37 por cento de abril.
Já o Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna (IGP-DI) ultrapassou as expectativas e avançou 1,46 por cento em maio, ante 1,15% em abril.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Fundação Getúlio Vargas (FGV), que divulgaram os dados, culparam e alimentação, em razão de colheitas prejudicadas por frio e chuva, pela aceleração e disseram que a recente desvalorização cambial ainda não foi captada nos preços.
A alta de alimentação deve continuar pressionando o IPCA nos próximos meses, levando economistas a prever que o Banco Central irá manter os juros em junho pelo segundo mês seguido.
Salomão Quadros, economista da FGV, disse que os preços administrados, como energia e telefonia, também ajudarão a acelerar a inflação.
Segundo ele, entre junho e julho, época em que se reajustam contratos de empresas desses setores, o IGP-DI acumulado em 12 meses deve ultrapassar 10%.
- O acumulado dos 12 meses está acelerando de forma rápida agora... E o IGP-DI é indexador de telefonia. Essa é uma infeliz coincidência que vai acabar pesando no bolso do consumidor e uma das razões pelas quais a inflação que parecia que iria atingir o centro da meta (de 5,5% em 2004) provavelmente vai acabar terminando o ano acima disso, em torno de 6,5% - afirmou ele, acrescentando que a tendência para o IGP-M, outro indexador de serviços, é a mesma.
Para Marcelo Ávila, economista-chefe, da consultoria Global Station, "a trajetória da inflação é de alta, é ladeira acima. Para junho, eu espero (um IPCA de) 0,55% ou até 0,60%. Eu espero piora porque tem alimentos e também tarifas".
A alta do IGP-DI - formado 60 por cento por preços no atacado - aponta como uma pressão sobre o IPCA de outra forma além de por preços administrados, já que a melhora do poder de compra do brasileiro abre espaço para repasses de preços do atacado para o varejo e deste para o consumidor.
- Os dados da economia mostram uma melhora (interna)... mostram uma ligeira pressão inflacionária - afirmou Adauto Lima, economista do Banco WestLB do Brasil.
Juros estáveis
Uma pesquisa da Reuters nesta terça-feira mostrou que todos os 20 economistas ouvidos prevêem que os juros ficarão estáveis em 16 por cento na reunião da semana que vem.
Quadros, da FGV, também projeta manutenção da Selic, nem tanto pela aceleração da inflação corrente, mas principalmente por incertezas como um eventual aumento de combustíveis ante os altos preços do petróleo internacional.