Rio de Janeiro, 20 de Outubro de 2026

Precisamos de profetas

Segunda, 22 de Agosto de 2011 às 08:14, por: CdB

Quempassa por um edifício em construção, pode ver placas dizendo: "Precisamos depedreiros”. Lojas de comércio alternam: "Precisamos de vendedores”.Infelizmente não podemos colocar nas portas das Igrejas: "Precisamos deprofetas e profetizas”. Entretanto, é bom espalhar por aí que isso é umanecessidade urgente e que se apresentem os/as candidatos/as. Não estranhem ofato de que, diferentemente de outros ofícios, a missão de profeta quase nuncaé bem aceita e reconhecida. Muitas vezes, gera até incompreensões e rejeiçõesinjustas. No tempo em que viveu no sertão do Nordeste, o padre Alfredo Kunzdizia: "Aqui, os urubus é que fazem o serviço de limpeza pública, já que asprefeituras não assumem. Todo mundo sabe disso. Entretanto, eu já vi gentecriando todo tipo de pássaros, mas nunca vi ninguém criar urubu. Os urubus sãonecessários, mas ninguém os quer perto. Urubus me lembram os profetas de Deus,necessários, mas frequentemente rejeitados”.

Não édifícil celebrar a memória de profetas mortos. O evangelho denuncia que osfariseus e mestres da lei matam os profetas e depois erguem para eles belos túmulos,contanto que continuem mortos (Mt 23). Atualmente, em certos ambienteseclesiásticos, quando alguém fala em profetas como Mons. Oscar Romero,arcebispo de El Salvador, assassinado por militares da ditadura salvadorenha e,aqui no Brasil, Dom Hélder Câmara, ex-arcebispo de Olinda e Recife, há quem oselogie, mas conclua com certo cinismo: "o tempo deles era outro. Hoje não podemais ser assim”. E assim, estes religiosos dos tempos novos se recolhem em seumundinho de paramentos, ritos paroquiais e segredos de cúria.

Paraquem a espiritualidade significa caminho de amor e solidariedade universal, omês de agosto recorda a memória de vários mártires da justiça do reino divino.No dia 10 de agosto de 1974, frei Tito Alencar, terrivelmente torturado em seucorpo e sua alma, procurava a paz na morte. No 12 de agosto de 1983, naParaíba, era assassinada Margarida Alves, presidente do Sindicato deTrabalhadores Rurais de Alagoa Grande. Além de vários homens e mulheres quederam a vida pela causa do reino, em agosto, partiram deste mundo três bisposcatólicos que marcaram muito a caminhada da Igreja no Brasil como profetas dapaz e da justiça: Dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Crateús, no Ceará e umdos primeiros bispos ligados à Teologia da Libertação; Dom Luciano Mendes deAlmeida, arcebispo de Mariana, MG, e ex-presidente da CNBB que, em 2006, partiuno dia 27 de agosto, mesma data em que, sete anos antes, no Recife, nos tinhadeixado Dom Hélder Câmara.

A missão de uma pessoa religiosa é ser testemunha da presença divinano mundo e atuar para que a sociedade se transforme de acordo com o projeto divinode paz e justiça para todos. Por isso, é bom recordarmos a profecia de pastorescomo Hélder Câmara, Antônio Fragoso e Luciano Mendes de Almeida. Todos os três,cada qual em sua área de atuação e do seu modo, conduziram a Igreja do Brasilpelo caminho da profecia.

Na memória destes três profetas da Igreja, nos damos conta da herançaprofética que recebemos e, junto com cristãos, pessoas de outras confissões etodos os homens e mulheres que acreditam no amor e na justiça, renovamos nossocompromisso de serviço aos irmãos e luta pacífica para transformarmos estemundo.

Em 1994, Dom Helder mandava esta mensagem ao movimento italiano ManiTesi (Mãos Estendidas): "Não estamos sós. Por isso, não aceito nunca aresignação nem o desespero. Um dia, a fome será vencida e haverá paz paratodos. A última palavra neste mundo não pode ser a morte, mas a vida! Nuncapode ser o ódio, mas o amor! Precisamos fazer com que não haja mais desespero esim esperança. Nunca mais vençam as mãos enrijecidas contra o outro e sim o queo movimento de vocês valoriza: Mãos estendidas! Unidas na solidariedade e noamor para com todos”.

[Autorde 40 livros, dos quais o mais recente é "Para onde vai Nuestra América” (Espiritualidadesocialista para o século XXI). São Paulo, Ed. Nhanduti, 2011. Email: irmarcelobarros@uol.com.br].

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