Um levantamento da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) mostra que, das 12 praias da Zona Sul, do Rio de Janeiro, monitoradas pelo órgão, quatro passaram quase todo o ano de 2003 impróprias para banho. Daquelas apontadas como próprias, a balneabilidade só é considerada excelente - com até 250 coliformes fecais por 100 mililitros em mais de 80% das amostras - no Arpoador e na Praia Vermelha.
De tão poluídas, as águas de Botafogo, Flamengo, Urca e São Conrado, as piores da Zona Sul, nem assustam mais a maioria dos banhistas. A sujeira, porém, não deixa de indignar quem convive, por exemplo, com as línguas negras de São Conrado.
"Nasci aqui e vinha à praia em São Conrado até oito anos atrás. Desde então, só escuto promessas e vejo as línguas negras correndo para o mar. Tenho amigas que só de caminhar na areia pegaram bicho-de-pé", indigna-se a estudante Priscila Gunzburger, 20 anos.
Acostumada a ver surfistas em frente de casa, Priscila se diz impressionada com a coragem dos amigos, que desafiam a poluição e o mau cheiro para aproveitar as boas ondas na Praia do Pepino. Não é para menos: em São Conrado, a água é considerada regular pela Feema, o que significa que entre 70% e 80% das amostras apresentam até mil coliformes fecais por 100 mililitros. Para a saúde, no entanto, a situação está longe de ser regular. O nível máximo aceitável para banho, de acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, é de 800 coliformes por amostra.
Mesmo com as línguas negras aparentes, o calor e os engarrafamentos nos fins de semana acabam levando a bacharel em turismo Suzana Castilho, 37, a mergulhar em São Conrado. "Arrisco e caio no mar, no cantinho da pedra, onde não deve ser tão sujo. Mas minha cadela já pegou dermatite", confessa Suzana.
Na Urca, onde há muito não há condições de banho, ano passado foram registrados mais de mil coliformes em pelo menos metade das amostras coletadas. Assim como a Praia de Botafogo, a Urca teve a água classificada como péssima.
Há cinco anos, o casal Simone Oliveira, 22, e Michael Félix, 20, freqüenta a Praia Vermelha com a filha Maria Eduarda, 6. Em um dos cantos da praia, há uma saída de esgoto e, à tarde, a areia fica repleta de lixo. Mesmo assim, a praia é considerada excelente pela Feema. "São todas sujas mesmo. Aqui pelo menos ela brinca com calma. Ainda que exista poluição, nunca tivemos nenhum problema de pele", defende o casal.
Mesmo com a instalação da Estação de Despoluição do Rio Carioca - principal poluidor da Praia do Flamengo -, em 2002, ao custo de R$ 3,7 milhões, as águas não tiveram melhoria satisfatória para o banho de mar. Mais de um ano depois da construção, a água ainda é considerada péssima nos relatórios. Em menos de 50% das amostragens foi apontado o máximo de 1.000 coliformes - o que significa que no restante do tempo os níveis estão acima da resolução 274 do Conselho Nacional de Meio-Ambiente (Conama).
No verão de 2001, quando a média na Praia do Flamengo era de 9 mil coliformes fecais para cada 100 mililitros, a bancária Ana Íris, 41, não se importava com a poluição do mar. Neste verão, ela garante que não ficará um dia longe da praia. "Mergulho aqui há sete anos e nunca apareci com nenhuma micose. O único dia em que achei o mar sujo fui para o Leme e lá estava pior. Não abro mão da Praia do Flamengo por nada", avisa Ana, moradora do bairro.
Segundo a chefe de divisão de qualidade de água da Feema, Fátima Soares, as coletas para análise são realizadas duas vezes por semana nas praias das zonas Sul e Oeste. Com as chuvas, comuns nesta estação, porém, o resultado pode ser alterado. Mesmo com qualidade excelente e sinal verde para o banho, Fátima recomenda que nos dias de chuva as praias sejam evitadas por pelo menos 24 horas, já que os temporais podem despejar levar detritos.