Rio de Janeiro, 29 de Agosto de 2026

Povo sem nação

Quarta, 08 de Dezembro de 2010 às 09:40, por: CdB

As voltas da história levaram à contradição de que seja Israel, o Estado judeu, o principal obstáculo para que outro povo, o palestino, se realize como nação integral

 

 

07/12/2010

 

Luis Buschtein

Pagina 12

 

 

No Oriente Médio, o povo judeu, que vinha de uma longa diáspora, converteu os palestinos nos judeus do mundo árabe. Em seu êxodo, os palestinos fizeram um processo similar ao que haviam feito os judeus. Muitos tornaram-se profissionais ou adquiriram conhecimentos e competências que poderiam ser levados com eles se tivessem que emigrar dos territórios que nunca lhes pertenceram. Tornaram-se assim em um dos povos árabes mais cultos, com um importante núcleo de intelectuais, pensadores e artistas disseminados em todas as partes do mundo. Foram, assim como os judeus, um povo sem nação. Esta ideia de povo sem nação é difícil de entender em todas as suas conotações de ausências e falta de identidade para os que não têm ou têm sofrido esse problema. Ou seja, é difícil para a maioria, menos para os judeus, que já sofreram esse cerceamento. E por outro lado, se são os que mais a entendem, teriam que entender mais do que os demais que não existe uma solução nacional sem território próprio. Os palestinos, como fizeram anteriormente os judeus, não cederão até conseguir seu próprio Estado em um território próprio. Qualquer outro caminho significará mais sangue e mais guerra.

As voltas da história levaram à contradição de que seja Israel, o Estado judeu, o principal obstáculo para que outro povo, o palestino, se realize como nação integral.  O projeto central dos governos israelenses é o de fronteiras seguras e, por isso, são relutantes nas negociações. E, na realidade, poderiam pensar em fronteiras seguras quando o povo palestino puder realizar-se como nação e desaparecerem os motivos que os levam a confrontar com o que lhes aparece como seu principal obstáculo.

A discussão no Oriente Médio é milenar e, portanto, inútil a partir desse enfoque. A realidade é que na atualidade existem dois povos que convivem em um território reduzido. Um deles com território e Estado e o outro não. Qualquer solução tem que partir dessa realidade. É inoperante pensar em um só Estado, seja judeu ou palestino, para o qual teria que jogar ao mar milhares de pessoas em qualquer um dos dois casos. É muito provável que o futuro de ambos os povos seja, inclusive, o de vincular-se em um só estado-nação ou confederação. Mas na atualidade qualquer tentativa de aplicar essa saída significaria uma guerra interminável que, aliás, é o que acontece atualmente.

A paz no Oriente Médio requer a existência de um Estado palestino independente e, por isso, é importante o impulso tomado por Uruguai, Brasil e, agora, Argentina, os três como parte do Mercosul, para reconhecer ao Estado palestino.

Essa ideia de que a paz no Oriente Médio requer a existência do Estado palestino também está em discussão. Porque o governo israelense sustenta que não reconhecerá o Estado palestino, se antes os palestinos não lhe garantirem a paz. Por sua vez, num primeiro momento o Hamas rechaçava o plano da existência de um Estado de Israel. Mas recentemente, um de seus principais dirigentes, Jaled Meechal, sugeriu que poderia negociar sobre a base das fronteiras de 1967. Mas advertiu que não reconhecerá Israel até ter um Estado próprio, independente e sem condicionamentos.

É um pouco o problema do ovo ou a galinha. Mais pragmática, a OLP elegeu um caminho intermediário: tomou os territórios vencidos e gerou o governo da Autoridade Palestina, que está disposto a participar nas negociações de paz. Mas estas negociações agora estão interrompidas por causa da construção de assentamentos judeus em terras palestinas. O governo israelense fala de um futuro Estado palestino e se incomoda com o atual reconhecimento argentino ao Estado palestino, mas, ao mesmo tempo, constrói assentamentos nesses territórios, o que faz com que suas palavras não sejam confiáveis.

Além disso, estes anos demonstraram que a existência de um Estado palestino seria apenas o começo. Se esse Estado for nada mais que um gueto pobríssimo junto a um Estado israelense próspero, como acontece com Cisjordânia e Gaza, a região continuará sendo um barril de pólvora. O Estado palestino tem que ter sua própria economia, sua própria indústria e seu próprio comércio. Tem que estar nivelado com o Estado de Israel e não subordinado a ele. E para que seja assim, deverá contar com o apoio de todo o mundo, mas sobretudo de Israel e dos Estados Árabes. Um Estado palestino próspero pode ser a chave para a paz no Oriente Médio.

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