Rio de Janeiro, 20 de Janeiro de 2026

Posfácio para Carmen Costa

Acabo de receber a notícia da morte de Carmen Costa. Hoje é dia 25 de abril de 2007. Decido abruptamente encerrar o trabalho de compilação das informações do almanaque Carrossel da Lapa no calor da emoção desta perda e da lembrança de nome tão emblemático da alegria carioca, alegria brasileira. Viver muito é perder muito. E nesses últimos tempos, andei tirando gente da coluna de vivos ilustres no Colégio de Bambas de Lapa para botar na galeria da saudade imensa. (Leia Mais)

Quarta, 25 de Abril de 2007 às 09:50, por: CdB

Acabo de receber a notícia da morte de Carmen Costa. Hoje é dia 25 de abril de 2007. Decido abruptamente encerrar o trabalho de compilação das informações do almanaque Carrossel da Lapa no calor da emoção desta perda e da lembrança de nome tão emblemático da alegria carioca, alegria brasileira. Viver muito é perder muito. E nesses últimos tempos, andei tirando gente da coluna de vivos ilustres no Colégio de Bambas de Lapa para botar na galeria da saudade imensa.

Vejo amanhecer, vejo anoitecer, e não me sais do pensamento, oh mulher! Tentei mostrar  que Carmen Costa não podia passar os últimos tempos na dificuldade em que vivia. Como pode a mulher que cantou com Carmen Miranda, que foi lançada ao mundo da música pelas mãos de Francisco Alves, em cuja casa trabalhou como doméstica, no Leme, que cantou no Carnegie Hall, que imortalizou o hino do Cordão da Bola Preta, que popularizou as belísimas canções e marchinhas do marido Mirabeau? Como pode tanta dificuldade? Onde estão as sociedades arrecadadoras? Onde, os direitos?

Tentamos fazer grande homenagem a Carmen Costa, em 2005, quando ela completava 85 anos de idade. Tive a ajuda da filha Silézia e das sobrinhas Vanusia e Zilmar Basílio. Visitei duas vezes o Bola, falei com a diretoria. Tentei a grande festa no dia do Prêmio Multishow ao lado do Bola, no Teatro Municipal. Mas nada, nada foi possível concretizar. Arranquei dela o número de sua conta corrente e repassei a personalidades num spam de solidariedade. Não sei se rendeu algua coisa.

Pouco antes, pelo menos, no dia Internacional da Mulher, fizemos uma pequena homenagem à grande cantora na Gafieira Elite, onde se apresentavam Beto Monteiro e Dominguinhos do Estácio. Conversei com Carmen Costa que tinha prometido ir à festa, mas refugou uma semana antes devido à íngreme escadaria do velho dancing da Praça da República. Foi representada por Zilmar Basílio, que recebeu flores e um diploma de honra ao mérito, elaborado com dedicação por Paulo Oscar Saad e a turma toda do funil e do Bloco das Carmelitas. Carmen Costa, a rainha do maior bloco, nasceu como Carmelita Madriaga.

Carmen se queixou dos governos todos que vêm se sucedendo no Brasil e nunca resolveram a questão dos artistas na terceira idade. A tentativa de fazer uma grande festa no Bola em sua homenagem não se concretizou por inexperiência minha, talvez. Mas ela estava animada. Disse que só queria o violão de João de Aquino a acompanhá-la. "Com ele eu meu ajeito", disse Carmen aos 85 anos.

Carmen, não houve tempo. O pequeno baile acabou e você vai, vitoriosa, ser lembrada para sempre. Você nunca foi a outra daquele inesquecível samba-canção. Você, como a Miranda, está na galeria de mártires da cultura brasileira, vítimas de uma indústria que, mal ou bem, terá de aprender a ser menos cruel.

Alfredo Herkenhoff é jornalista.

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