A onda de choque no cenário políticointernacional, gerada logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001, atingiuem cheio a América Central. E seus reflexos ainda são muito sentidos nosúltimos dez anos. De acordo com analistas e pesquisadores consultados por OperaMundi, esse evento influenciou a agenda política, econômica e social daregião que, historicamente e de forma pejorativa, sempre foi conhecida como o"quintal dos fundos" dos Estados Unidos.
Embora a resposta militar norte-americanatenha se voltado para o Oriente Médio, a América Central não escapou dosefeitos da crise. Diante da condição imposta às nações do mundo pelo presidenteGeorge W. Bush logo após o ataque – "Ou vocês estão conosco ou estãocontra nós" –, os presidentes das nações centro-americanas na época nãodemoraram em se reunir e condenar os atentados. Posteriormente, deram totalrespaldo a todas as ações militares norte-americanas.
Poucos dias após o atentado, governoscentro-americanos de seis países (Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras,Nicarágua e Belize) divulgaram a declaração "América Central unida contrao terrorismo". Mais do que uma carta de boas intenções, os líderes daregião firmaram acordos de segurança visando ações de cooperação contra oterrorismo, segurança e migração. Também aderiram à "Coalizão daVontade", articulada por Washington para justificar a invasão do Iraque em2003. Naquele ano, El Salvador, Honduras, Nicarágua, além da RepúblicaDominicana, no Caribe, enviaram tropas ao Golfo Pérsico.
Terrorismo e narcotráfico
Esta renovada relação entre os EUA e aAmérica Central foi se consolidando nos anos seguintes aos atentados do 11 deSetembro, com uma escalada da presença militar norte-americana na região.Trata-se de uma ofensiva baseada em dois eixos: contra o terrorismo e onarcotráfico. Aparentemente, um terceiro elemento, talvez o mais importante, semanteve oculto: o econômico.
"O 11 de Setembro não desencadeou nadaque não estivesse previsto [na região] e foi um pretexto para impulsionar algoque já vinha sendo planejado. O apoio servil oferecido pelos governoscentro-americanos permitiu que esse plano de militarização, controle econômicoe saque de recursos fosse levado a cabo com mais impunidade e legalidade",disse ao Opera Mundi Bertha Cáceres, coordenadora do Copinh (ConselhoCívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras).
Wikicommons
Área de atuação das Frotas dos Estados Unidos ao redor do planeta
Na época os EUA estavam com extremadificuldade para implementar sua estratégia de criar um mercado únicopan-americano, a Alca (Acordo de Livre Comércio das Américas). Por essa razão,começaram a promover TLCs (Tratados de Livre Comércio) regionais. "A buscade um tratado comercial com a América Central e a República Dominicana (oCAFTA-DR) e a consolidação de suas empresas transnacionais definiram osinteresses estratégicos militares e econômicos dos Estados Unidos naregião", afirmou Cáceres.
Para a dirigente indígena, os anosposteriores aos atentados de Nova York e Washington serviram para que os EUA"penetrassem em países e governos, aplicando a "Doutrina do Choque” (termocriado na obra de Naomi Klein, The Shock Doctrine: The Rise of DisasterCapitalism, 2007), para reafirmar sua política de dominação econômica emilitar por meio da aprovação de marcos jurídicos que beneficiassem suascompanhias multinacionais".
O sociólogo guatemalteco Gustavo PorrasCastejón aprofundou o conceito, declarando ao Opera Mundi que os EUAenxergaram na guerra ao narcotráfico um verdadeiro negócio. "A guerra aonarcotráfico se transformou no sonho do militarismo norte-americano: uma guerrasem fim, fora de seu território e, agora, pela primeira vez, sem seus soldados.Um negócio que faz funcionar sua indústria armamentista e permite incrementar oorçamento de suas agências."
Para Porras, o 11 de Setembro setransformou em um novo Pearl Harbour, ou seja, "um pretexto para pôr emprática o que havia sido planejado. Um ato terrorista que favoreceu o agredidode uma maneira espetacular e que permitiu a busca de uma saída para uma criseque se aproximava".
Charges do cartunista brasileiro Carlos Latuff
aparecerão ao longo do especial do Opera Mundi
Militarização
Segundo dados do Pentágono, em 2008, os EUAtinham 865 instalações militares em mais de 40 países, com uma mobilização demais de 190 mil soldados em mais de 46 países e territórios.
"Em Honduras, temos a base dePalmerola/Soto Cano, a maior da região. E foram instaladas mais duas bases emCaratasca e na Ilha de Guanaja. Há patrulhas e manobras militares conjuntas emtoda a região leste do país e não podemos esquecer a reativação da QuartaFrota, o impulso da Iniciativa Mérida (tratado de Segurança envolvendo EUA, Méxicoe América Central) e a intensificação de exercícios militares", explicouCáceres.
Depois de cumprir 58 anos de sua dissolução(1950), a Quarta Frota da Armada dos EUA voltou a operar em 2008. Sob a chefiado Comando Sul e formada por 21 navios e seis esquadrões de helicópteros, afrota tem como território de intervenção a superfície da América do Sul,América Central e Caribe.
Ao longo de 2009, a frota realizou manobrasmilitares conjuntas, que foram consideradas uma verdadeira "Cúpula militarda América", com a participação de dez países da região com mais de 30embarcações de superfície, dois submarinos, cerca de 50 aeronaves e mais de 10mil homens.
Vários analistas consideram que suareativação tem como objetivo o controle dos processos de integração políticalatino-americanos, como o Sica (Sistema de Integração Centro-Americano), aUnasul (União de Nações Sul-Americanas) e a Alba (Aliança Bolivarianapara os Povos da Nossa América), além da criminalização dos movimentos deemancipação econômica, social e política que se multiplicaram por toda aAmérica Latina.
Para Porras, a Quarta Frota seria tambémuma resposta à decisão tomada pela Unasul em 2008 de formar o CDS (Conselho deDefesa Sul-Americano), "com o objetivo de se distanciar da estratégia desegurança do Pentágono e estabelecer os interesses próprios de segurança dospaíses da região".
Criminalização do protesto
É uma conjuntura que indica umaprofundamento da agressividade norte-americana. "Os EUA precisam ter maiscontrole militar sobre nossa região. O enfraquecimento econômico e político iráobrigá-los a intensificar a ação militar e voltar a olhar com maior intensidadepara nosso continente. Poderíamos até mesmo sofrer uma Doutrina Monroe doséculo 21", disse o analista político nicaraguense Julio López Campos.
Diante desta situação, vários movimentos jáse mobilizam para reagir ao que consideram um novo plano de dominação."Depois do 11 de Setembro e do golpe de Estado em Honduras, as forçasdireitistas da região se reacomodaram. Devemos articular e fortalecer asdiferentes forças sociais, mantendo nossa dinâmica de luta, nossa autonomia,sem perder as perspectivas e os objetivos que temos buscado, mas com a audáciade coordenar ações com os governos progressistas da região", disseCáceres.