Rio de Janeiro, 12 de Setembro de 2026

Por um Afeganistão com menos tropas estrangeiras

Sexta, 24 de Junho de 2011 às 17:47, por: CdB

Por um Afeganistão com menos tropas estrangeirasDepois do anúncio do presidente dos EUA, Barack Obama, sobre a retirada, em setembro de 2012, de 33 mil soldados estadunidenses estacionados nos Afeganistão, o presidente do país asiático, Hamid Karzai, assegurou que o início da retirada das tropas dos EUA é “um passo importante para a liberdade”, enquanto os talibãs qualificaram o anúncio como uma medida simbólica que não muda a situação. Por sua parte, os aliados dos EUA na invasão do território afegão seguirão com seus atuais planos de retirada de tropas.

Página/12

Em um discurso televisionado, Karzai felicitou a nação afegã por avançar na defesa de seu território “por seus próprios meios e com as mãos de sua própria juventude”. Ele enfatizou: “Começou um processo muito importante para nossa liberdade, para nosso governo e para a proteção do Afeganistão pelos próprios afegãos”.

Segundo o plano apresentado por Obama, nos próximos 15 meses, 33 mil soldados abandonarão o Afeganistão. Mas os talibãs asseguram que a “solução para a crise afegã só chegará com a total saída das tropas estrangeiras” e que, até se chegar a isso, a luta “se incrementará dia a dia”. Para eles, a retirada gradual das tropas é “só um passo simbólico” que não cobre sequer as expectativas do povo norte-americano. O movimento qualificou de “propaganda” a afirmação de Obama de que a saída militar ocorre em um momento vantajoso para as tropas internacionais, algo que, segundo os talibãs, está orientado para dar falsas esperanças aos estadunidenses.

Uma das principais interrogações que cerca o começo da retirada progressiva dos EUA é a capacidade das forças afegãs para assumir a sua função. Segundo o Ministério de Defesa afegão, não se deve duvidar de que o Exército e a Polícia afegãos são capazes de manter a segurança e continuar com as operações em marcha, enquanto saem as tropas estrangeiras. Os EUA têm atualmente no território asiático cerca de 100 mil soldados, dois terços do contingente militar estrangeiro que, em setembro do ano que vem, disporá ainda de aproximadamente 67 mil efetivos.

Após o anúncio de Washington, outros países da OTAN presentes no Afeganistão, também se referiram a seus planos de retirada militar. A Espanha disse que fará isso ao longo de 2012, de maneira que serão cumpridos os prazos marcados pela OTAN em sua última cúpula no mês de novembro de 2010.

Dois dos países com maior presença no Afeganistão, França e Alemanha, também seguiram na linha de Washington. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse que a retirada das tropas francesas ocorrerá “de maneira proporcional com um calendário comparável” aos dos EUA, enquanto que o ministro alemão de Relações Exteriores, Guido Westerwelle, confirmou que seu país começará a retirar suas forças no final deste mesmo ano. Em outra direção, a primeira ministra da Austrália, Julia Gillard, declarou que os 1.550 soldados australianos ficarão até 2014.

O anúncio dos Estados Unidos sobre o início da retirada gradual de suas tropas do Afeganistão foi acolhido positivamente por seus parceiros internacionais que, apesar disso, manterão majoritariamente seus atuais planos de retirada. O único a somar-se diretamente à iniciativa de Washington foi o presidente francês Nicolas Sarkozy, que anunciou uma retirada de tropas do Afeganistão de maneira proporcional e com um calendário comparável ao dos EUA. Sarkozy, no entanto, não ofereceu números nem datas concretas sobre o começo da retirada dos quase 4 mil militares que a França mantém no Afeganistão.

Até agora, a Alemanha foi o único país que anunciou uma primeira retirada já para este ano, enquanto que os demais sócios nesta operação internacional reafirmaram seus planos de começar a retirada só em 2012. Com quase 5 mil soldados, a Alemanha é, depois dos EUA e da Inglaterra, o terceiro país com o maior número de efetivos no país asiático. “Do mesmo modo que os EUA, a Alemanha também dará sua contribuição a uma aplicação responsável da estratégia intermnacional. Também é nossa meta começar a reduzir nossos efetivos no final desse ano”, explicou o ministro de Relações Exteriores, Guido Westerwelle, em um comunicado. O primeiro ministro britânico, o conservador David Cameron, assegurou que seu país não mudará seus planos de manter as tropas no Afeganistão até 2014. As previsões do governo de Londres apontam uma primeira retirada de 400 de seus 9.500 efetivos até fevereiro de 2012, cifra que, segundo informações da BBC, poderá ser ainda maior. O ministro de Assuntos Exteriores britânico, William Haque, diminuiu a importância do anúncio do presidente Barack Obama, ao recordar que, com essa retirada, os EUA não fazem mais que regressar à situação anterior.

Ante a recuperação de terreno por parte dos talibãs, Obama havia ordenado no final de 2009 um envio adicional de 33 mil soldados, o mesmo número que quer retirar até setembro de 2012. Cabe lembrar que os planos da OTAN contemplam a passagem gradual das responsabilidades às forças afegãs até 2014, período no qual um forte contingente internacional permanecerá no país. Dos 150 mil que estão hoje no Afeganistão, cerca de 100 mil são dos EUA. Segundo Obama, depois do verão de 2012, esse número caíra para 67 mil.

O governo da Itália, por sua vez, com cerca de 4 mil soldados na região – o quinto país em número de efetivos – reiterou a intenção de começar a reduzir seu contingente em janeiro próximo. O ministro de Relações Exteriores, Franco Frattini, disse que a retirada das forças italianas começará “em janeiro de 2012”, como já foi anunciado na cúpula da OTAN em Lisboa e “com base no acordo alcançado com os parceiros internacionais”. O Ministério da Defesa da Escpanha, por sua parte, anunciou que ao longo do próximo ano começará a retirar seus 1.500 efetivos de forma gradual e progressiva, cumprindo assim os prazos estabelecidos na última cúpula da OTAN. Já o governo belga anunciou que os 600 soldados que têm destacados no Afeganistão permanecerão lá ao menos este ano e que será o próximo governo, que deve ser formado no outono, que tomará as decisões sobre o destino dessas tropas.

A Austrália, com um número de soldados similar ao da Espanha, reafirmou que seu contingente permanecerá no Afeganistão até 2014, quando se estima que as forças locais possam garantir a segurança do país. O exército australiano que participa de operações de combate no Afeganistão é o maior contingente de um país que não pertence à OTAN.

Tradução: Katarina Peixoto


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