Rio de Janeiro, 23 de Setembro de 2026

Por que Lula não muda?

Por Emir Sader - Esperemos que Lula não se valha do expediente de Clinton e, nas únicas páginas que realmente interessarão das suas memórias, diga: "Mantive aquela política econômica antipopular pelo pior argumento: porque podia". (Leia Mais(

Sexta, 25 de Junho de 2004 às 09:35, por: CdB

Esperemos que Lula não se valha do expediente de Clinton e, nas únicas páginas que realmente interessarão das suas memórias, diga: "Mantive aquela política econômica antipopular pelo pior argumento: porque podia".
 
Se Lula fizer um plebiscito, com voto secreto, no seu governo, a política econômica atual seria derrotada por goleada. O mesmo aconteceria se ocorresse um plebiscito similar com toda a militância do PT, na Câmara e no Senado. Se houvesse um plebiscito nacional, o mesmo resultado aconteceria.

A publicação da autobiografia de Bill Clinton ("My Life"), da mesma forma que aconteceu com a de Hillary Clinton ("História Viva"), revelou, sem nenhum disfarce, que o único tema que interessava às centenas de milhares de pessoas que compram essas obras é o episódio do ex-presidente com a ex-estagiária Monica Lewinsky. Veja o destaque que a imprensa dá, para saber que páginas serão folheadas das centenas delas disponíveis.

Clinton encontrou a fórmula para expressar seu erro. Fez o que fez pelo pior dos motivos: porque podia. Porque uma estagiária da Casa Branca não resistiria ao presidente da República. Por mais que seus colegas democratas - de forma similar a Maluf - dissessem algo como: "Se quiser ter um caso assim, que seja: mas não na Casa Branca e no Salão Oval..."

Só esperamos que Lula não use a mesma explicação, daqui a alguns anos, para aquilo que hoje ninguém consegue responder: por que mantém uma política econômica que leva o seu governo, um ano e meio depois, a piorar ainda mais todos os índices sociais? Por que não rompe com um modelo fracassado, que ele mesmo e o PT condenaram por tanto tempo?

Por que Lula mantém uma política econômica condenada pelos partidos aliados do PT, por praticamente todos os economistas de esquerda, pelos formadores de opinião de esquerda, por todos os movimentos sociais organizados, pelos participantes do Fórum Social Mundial? Por que Lula mantém uma política econômica elogiada pelo FMI, pelo Banco Mundial, por todos os economistas de direita, pelos bancos e pelos especuladores?

Esperemos que Lula não se valha do expediente de Clinton e - nas únicas páginas que realmente interessarão das suas memórias de governo - diga: "Mantive aquela política econômica antipopular pelo pior dos argumentos: porque podia".

Ainda é tempo de mudar, enquanto Lula pode.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História

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