A Turquia parece ingressar definitivamente no mapa geopolítico da "guerra infinita". A reiteração de ações terroristas nesse país levanta a pergunta: por que a Turquia?
A Turquia se tornou um aliado estratégico dos EUA na região, tão mais valioso porque sua inserção está na fronteira entre a Ásia e a Europa, no meio do caminho do Oriente Médio. Sua recente aliança com Israel, um papel que nenhum governo árabe quis assumir, acelera o alinhamento com os EUA, presente já anteriormente pelo apoio de Washington à Turquia contra a Grécia na ocupação de Chipre pelo governo de Ancara.
Os EUA apóiam igualmente o ingresso da Turquia no processo de unificação européia, que é questionado pelos graves problemas de direitos humanos no país, presentes muito claramente na forma de tratamento da questão curda. Sua importância para a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) é utilizada como argumento pelos EUA, porém a Grécia é um aliado preferencial dos países europeus, dificultando a adesão turca.
Na segunda guerra do Iraque, o governo turco não conseguiu criar as condições de participação direta em apoio às tropas norte-americanas e britânicas, com medo de que os curdos do norte do Iraque se fortalecessem na sua luta pela autonomia, com reflexos diretos sobre a Turquia - país de maior contingente curdo no mundo. No entanto sua posição de apoio político a essa ação nunca deixou de ser afirmada.
O anúncio de um plano antecipado de transferência do governo do Iraque para forças locais por Washington - embora seja simplesmente uma data no calendário eleitoral norte-americano, ninguém acreditando no fim da ocupação militar do país - fortalece os que estão desenvolvendo as ações terroristas, que se sentem fortalecidos, como se se tratasse de uma confirmação da eficácia de sua ação. A recusa do Japão de mandar tropas parece reforçar o argumento no sentido de que, apesar da reação imediata da opinião pública, como no caso da Itália, em apoio a seus governos, em seguida esses mesmos governos não se sentem em condições de manter ou ampliar a participação militar no conflito.
Por esse conjunto de razões, a Turquia se torna um país especialmente fragilizado diante das ações terroristas. Situação interna tensa, governo débil, aliança com Israel, tema curdo não resolvido - tudo concorre para que o país tenha se transformado num nono epicentro da desordem política mundial intensificada a partir de setembro de 2001.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História" (Boitempo Editorial) e "Século XX - Uma biografia não autorizada" (Editora Fundação Perseu Abramo).
Por que a Turquia?
Por Emir Sader - Situação interna tensa, governo débil, aliança com Israel, tema curdo não resolvido - tudo concorre para fazer do país a bola da vez do terrorismo. (Leia Mais)
Quinta, 20 de Novembro de 2003 às 20:32, por: CdB