Rio de Janeiro, 12 de Abril de 2026

Polônia teme que mundo esqueça Holocausto

Sexta, 26 de Maio de 2006 às 08:47, por: CdB

Seis décadas depois do Holocausto, a Polônia teme que o mundo esteja esquecendo que a Alemanha nazista foi a responsável pelos campos de concentração criados com o objetivo de eliminar os judeus europeus.

O país afirma que a expressão "os campos poloneses da morte" tem aparecido em jornais de todo o mundo, nos últimos anos, em reportagens sobre os campos construídos pelos nazistas em território ocupado onde hoje é a Polônia.

Varsóvia leva a questão tão a sério que já deu início a uma campanha para garantir que a expressão "campos de concentração da Alemanha nazista" seja usada como referência a Auschwitz. Os jornais que escrevem "campos poloneses da morte" recebem prontamente uma carta de protesto da embaixada polonesa local.

Nesta semana, em visita ao campo localizado no sul da Polônia, August Kowalczyk, ex-detento número 6804, disse ter esperanças de que o papa alemão Bento 16 incentive essa campanha ao visitar Auschwitz, no final de sua peregrinação pelo território polonês.

- Se o papa Bento XVI disser que estamos no campo nazi-alemão de Auschwitz, as pessoas talvez compreendam isso de uma vez por todas - afirmou Kowalczyk, um escritor e ator polonês aposentado. Cerca de 1,5 milhão de pessoas, em sua maioria judeus, morreram no campo durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45).

- Muitas pessoas afirmam que esse campo é polonês, mas, se um papa alemão disser que não é, então as pessoas talvez nos dêem ouvidos - acrescentou.

As orações de Bento XVI em Auschwitz serão as únicas feitas em alemão proferidas por ele durante sua viagem. O pontífice tem evitado usar sua língua materna para não ferir os sentimentos dos poloneses e judeus.

Parte da razão para a designação "campos da morte poloneses" é uma confusão geográfica, dizem historiadores. À medida que o tempo passa, um número cada vez menor de pessoas se lembra de que os nazistas montaram seus campos de concentração em territórios localizados longe da Alemanha, também, provavelmente, para esconder os horrores do Holocausto.

Auschwitz é o maior dos campos de concentração construídos no território que hoje pertence à Polônia. Entre os outros conhecidos estão Belzec, Sobibor e Treblinka.

Mas um perigo mais grave ronda a questão. O ex-ministro alemão das Relações Exteriores Adam Rotfeld disse, no ano passado, que alguns intelectuais e líderes da extrema direita alemã pareciam estar tentando reescrever a história e dividir a culpa pelo Holocausto.

Uma pequena minoria de grupos judaicos vê na frase uma forma de acusar os poloneses de anti-semitismo, disse Stefan Wilkanowicz, vice-presidente do Conselho Internacional Auschwitz. Mas, segundo Wilkanowicz, seu grupo havia conseguido apoio para mudar o memorial do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém.

- Essa conversa sobre campos poloneses é pura propaganda -  afirmou.

- Muitas pessoas não conhecem a história e acham que os poloneses criaram os campos de concentração.

O governo polonês pediu à agência das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) que mude o nome do campo em sua lista de patrimônios da humanidade, de Campo de Concentração de Auschwitz para Ex-Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau da Alemanha Nazista.

- O nome antigo deixou de ser compreensível, especialmente para a geração mais jovem -  escreveu o vice-ministro polonês da Cultura, Tomasz Merta, no pedido apresentado em março.

Pouco depois, Maram Stern, vice-secretário-geral do Congresso Mundial Judaico (WJC), criticou o pedido, que considerou uma tentativa de "redefinir a história mudando o nome".

Em uma declaração subsequente, o WJC disse que a Polônia não deveria ser responsabilizada pelo Holocausto e sugeriu que uma pequena comissão, da qual participariam sobreviventes do campo de concentração, estudasse a questão e fizesse recomendações.

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