Rio de Janeiro, 30 de Março de 2026

Políticos dão mau exemplo a alunos em Porto Velho

Sexta, 01 de Setembro de 2006 às 09:09, por: CdB

Professora há 25 anos, Nilma Paes de Oliveira Serrath anda preocupada com seus alunos na Escola de Ensino Fundamental Branca de Neve, em Porto Velho, capital de Rondônia. Ela tem medo do exemplo que as crianças aprendem nas vizinhanças da escola.

- Se você teve uma boa infância, você não esquece aquilo que viveu - explica.

Exatamente do lado oposto da rua Major Amarante, onde fica a escola Branca de Neve, está a entrada principal da Assembléia Legislativa de Rondônia, palco de escândalos envolvendo corrupção desde 2005.

- A criança vai crescer sendo desonesta, essas coisas marcam. Eles vão dizer: se fulano rouba, por que eu não posso roubar? Eles vão crescer revoltados - diz Nilma.

No ano passado, as aulas na Branca de Neve foram suspensas por três dias quando protestos de estudantes depredaram a assembléia. Foi pouco depois da divulgação, na televisão, de vídeos que mostravam deputados tentando extorquir dinheiro do governador em troca de apoio político.

- Eu acho a maior besteira, porque tacaram tanta pedra, fezes, aqueles foguetes, não deu em nada. Quem passou vergonha? Foi quem veio. Isso aí vai ser pago com o nosso próprio dinheiro - lamenta Nilma.Os estudantes que organizaram o protesto alegam que havia agitadores infiltrados, além de pessoas que não faziam parte do movimento, mas se juntaram à passeata e fizeram a situação fugir ao controle.

A Branca de Neve é uma escola estadual. Tem a pintura gasta, os móveis antigos. Nem parece que são os mesmos cofres do estado que sustenta a assembléia, logo ali em frente, com suas  portas de vidro, janelas decoradas, jardim interno, ar condicionado, e três recepcionistas, apesar dos corredores vazios com a proximidade das eleições.

No dia 4 de agosto, a rua Major Amarante foi novamente fechada, desta vez pela Polícia Federal. Nilma pôde passar pelo bloqueio para dar suas aulas. No prédio da assembléia, era executada a Operação Dominó, que prendeu várias pessoas responsáveis pelo desvio de pelo menos R$ 70 milhões da assembléia.

Nilma Paes de Oliveira Serrath, 44, leciona há 25 anos. É mais tempo do que Rondônia tem de eleições diretas - o estado era território federal até os anos 80, administrada por políticos "biônicos", indicados pelo governo federal.

Apesar dos sucessivos escândalos, a professora diz que mantém a esperança com as eleições. "Não anulo meu voto de jeito nenhum. Eu tenho que procurar. Um dia eu vou acertar", diz ela.

- Eu agora fico assistindo ao horário político: aquele que mais fala, eu digo, esse aí não, tem que ser aquele que fala menos. O que me chateia é que, mesmo com tudo o que aconteceu, vai ter vários deputados aí que vão ser reeleitos - conta.

A professora atribui o fato à população "menos esclarecida", que chega a vender o voto. Mas reconhece, entretanto, que o deputado em quem havia votado nas últimas eleições também está envolvido no escândalo de corrupção:

- Eu não conhecia a pessoa. Eu votei através de um amigo meu que trabalha com ele. E cada vez a gente vai se decepcionando mais. É difícil, a gente não sabe como vai ficar o nosso Brasil.

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