Celebrado no mundo inteiro após sua morte, o ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan causava tanta polêmica com suas políticas quanto o atual mandatário norte-americano, George W. Bush.
Ao morrer no sábado, aos 93 anos, Reagan foi lembrado pelos europeus como um defensor da liberdade, aquele que construiu uma parceria com o líder soviético Mikhail Gorbatchev e ajudou a pôr fim, sem derramamento de sangue, à Guerra Fria e ao mando comunista no Leste Europeu.
Mas, no início dos anos 1980, centenas de milhares de jovens da Europa Ocidental faziam passeatas contra Reagan, acusando-o de elevar o nível de tensão no mundo e mantê-lo à beira do holocausto nuclear. Os governos europeus eram quase tão críticos quanto os manifestantes.
Um pôster famoso na época parodiava o filme "E o Vento Levou", mostrando Reagan carregando a então primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, nos braços. "Ela prometeu segui-lo até o fim do mundo, e ele prometeu providenciá-lo", dizia a legenda.
Os enormes gastos militares de Reagan, o imenso déficit público e o tom moralista em relação à União Soviética, que chamava de "império do mal", eram muito malvistos na Europa Ocidental.
O então chanceler da Alemanha Ocidental, Helmut Schmidt, afirmou que os déficits norte-americanos haviam gerado "os juros mais altos desde o nascimento de Jesus Cristo".
A tentativa de Reagan de evitar um acordo entre empresas européias e Moscou, para a construção de um gasoduto, em 1982, provocou uma das piores crises da história da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Apoiadas pelo governo, as empresas foram em frente com o negócio, e os interesses de Washington não foram afetados como Reagan previa.
O ex-presidente americano era acusado por autoridades européias de ser simplório, economicamente irresponsável e insensível às causas de ajuda ao Terceiro Mundo e de aproximação entre Ocidente e Oriente.
O então presidente francês, François Mitterrand, opôs-se abertamente ao apoio de Reagan aos rebeldes anticomunistas da Nicarágua, os contra, e enviou helicópteros para ajudar o governo sandinista a combatê-los.
Talvez a medida mais polêmica de Reagan tenha sido o projeto apelidado de "Guerra nas Estrelas", que propunha uma defesa com base no espaço contra mísseis nucleares. Até aliados como Thatcher o criticaram. O escudo antimíssil nunca foi adiante, mas, em retrospecto, foi responsabilizado por colaborar para a queda da União Soviética.
Há vários paralelos entre Reagan e o atual presidente. Uma das primeiras ações de Bush, em 2001, foi se retirar do Tratado Antimísseis Balísticos, com Moscou, para iniciar um sistema de defesa nacional.
Ele era frequentemente acusado de utilizar o poder norte-americano para interferências no mundo e era figura sempre presente nas charges políticas da Europa, assim como Bush.
Mas, ao contrário do que aconteceu em relação ao Iraque, os europeus apoiaram em massa Reagan no maior impasse político dos anos 1980 com a União Soviética: a colocação de mísseis de cruzeiro e Pershing-2 norte-americanos na Europa Ocidental.
Apesar dos protestos de movimentos antinucleares, os líderes da Alemanha Ocidental, da Grã-Bretanha, da Itália, da Bélgica e da Holanda deram apoio à instalação dos mísseis, que visavam combater os soviéticos SS-20.
O fato abriu caminho para que Reagan negociasse com Gorbatchev um histórico acordo de desarmamento, que eliminou mísseis de médio alcance de ambos os lados e inscreveu o nome do ex-ator como pacifista nos livros de história.