Rio de Janeiro, 10 de Fevereiro de 2026

Polêmicas da atual crise aérea

Por Luís Carlos Lopes: Por trás da tragédia de Congonhas, vem se revelando como é falaciosa a idéia de um estado mínimo e da auto-regulação empresarial. O desejo de lucrar, cada vez mais, cega os estrategistas das empresas, que perdem qualquer possibilidade de usar de princípios racionais. (Leia Mais)

Sábado, 11 de Agosto de 2007 às 16:51, por: CdB

Falar que no Brasil existe, presentemente, uma crise aérea é como dizer que a chuva é molhada. Todavia, é preciso repetir o óbvio, quando as raízes de um problema são desvirtuadas e manipuladas por múltiplos interesses. A crise aérea brasileira vem movimentando todo mundo. Mexeu com a consciência média dos brasileiros, fazendo com que o assunto fosse discutido em vários espaços. Foi divulgada mundo afora e reinterpretada de inúmeras formas. Empurrou o parlamento, o poder Executivo e o Judiciário a se pronunciar e buscar soluções. Explodiu nas grandes e pequenas mídias, sobretudo após o dramático e
catastrófico acidente de Congonhas, São Paulo.

As raízes da crise são múltiplas e complexas. O primeiro sintoma mais grave apareceu com a falência branca da Varig. O desmantelamento da maior empresa de aviação comercial do país teve conseqüências muito negativas. Isto não poderia ter acontecido. Mesmo que, contrariando o neoliberalismo de plantão, a Varig fosse estatizada e saneada. A gigante azul não poderia ter desaparecido como a velha Pannair. Optou-se por deixar o mercado resolver o problema e se está, agora, colhendo os frutos.

O segundo foi assistir o loteamento do mercado aéreo por duas empresas, antes pouco expressivas, com menor experiência operacional e imensa voracidade comercial. O contexto econômico positivo aumentou a demanda de passagens e de vôos, sem que isto fosse acompanhado por maiores investimentos na infra-estrutura. O mercado aéreo cresceu vertiginosamente, gerando lucros colossais. Os consumidores viram os aeroportos cheios, a desordem nos horários e a prática deliberada do overbooking, isto é, a venda irresponsável de bilhetes sem lastro de viagens efetivas. Ao que se sabe, até agora, nenhuma empresa foi severamente punida por esta prática imoral e inaceitável. Os passageiros prejudicados não foram, igualmente, indenizados.

O terceiro foi balizado pelo baixo nível de percepção do fenômeno da crise dos controladores de vôo. Esta crise foi permeada por greves e outras manifestações de resistência de trabalhadores militares e civis descontentes com seus salários e suas condições de trabalho. Dentre estas, houve a denúncia do sucateamento e da inexistência de equipamentos necessários. Reclamou-se da disciplina castrense e da super-exploração desta mão-de-obra especializada, obrigada a trabalhar mais do que um ser humano é capaz. O acidente da Serra do Cachimbo e caos aeroportuário, mostrado nas grandes mídias, completaram o cenário. As organizações governamentais - agências, empresas e ministérios - não foram capazes de impedir o avanço da crise e os fatos se precipitaram fazendo com que a chuva respingasse para todo o lado.

O quarto sintoma foi o do uso político da crise. A oposição de direita ao governo Lula, no Congresso e na sociedade civil, vem aproveitando da crise para fazer política, minimizando as responsabilidades empresariais e aumentando as do governo. O último acidente deixou a descoberto esta estratégia. Isto porque a crise chegou a um ápice dramático, revelando que há muito mais abaixo da ponta do iceberg. Por trás da tragédia, vem se revelando como é falaciosa a idéia de um estado mínimo e da auto-regulação empresarial. O desejo de lucrar, cada vez mais, cega os estrategistas das empresas, que perdem qualquer possibilidade de usar de princípios racionais. O Estado não pode abrir mão de sua posição de regulador e também precisa ter seus agentes vigiados, por efeito do risco constante da contaminação da corrupção.
São pródigas as denúncias desta natureza, no que se refere aos órgãos ligados ao transporte aéreo do país.

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