Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Poder global e nação: o dilema de Davos

Por José Luís Fiori - Toda hegemonia foi e será sempre uma posição transitória de poder, alcançada e mantida por meio da guerra, que se perpetua, por isso mesmo, também nos períodos em que o mundo esteve ou está sob a sólida liderança de uma única potência. (Leia Mais)

Sexta, 13 de Fevereiro de 2004 às 08:55, por: CdB

"Far from retreating like some snail behind an electronic Shell, the United States should be devoting a larger percentage of its vast resources to making the world safe for capitalism and democracy. But like free trade, these are not naturally occurring, require strong institutional foundations of law and order. The proper role of an imperial America is to establish these institutions where they are lacking, if necessary - as in German and Japan in 1945 - by military force".
Nial Ferguson, The Cash Nexus, 2002, p: 416

Foi no início da década de 1970, e sob o signo da "crise da hegemonia americana", que o economista Charles Kindelberg formulou a tese central da "teoria da estabilidade hegemônica": "para que uma economia mundial liberal funcione de forma eficaz, é necessário que exista um país e só um país, que cumpra o papel de estabilizador do sistema". Um país que assuma a responsabilidade pelo fornecimento de alguns "bens públicos" indispensáveis a uma economia liberal, como seria o caso de uma moeda internacional, da garantia do livre-comércio e da coordenação global das políticas econômicas dos Estados nacionais. Quase na mesma época, Robert Gilpin, cientista político também norte-americano, chegou à mesma conclusão. Ele dizia, que "na ausência de uma potência liberal dominante, a cooperação econômica internacional fica extremamente difícil de ser alcançada ou mantida." Kindelberger falou inicialmente na necessidade de uma "liderança" ou "primazia", mas depois Gilpin e um número cada vez maior de autores passaram a utilizar o conceito de "hegemonia mundial".

A tese da necessidade de um poder supranacional não era nova, já havia sido formulada pelo inglês Edward Carr, na década de 1930, e depois foi retomada pelo francês Raymond Aron, na década de 1950. Edward Carr não era um conservador, mas era um realista que pensou suas idéias durante a "era da tragédia", entre as duas grandes guerras mundiais, e concluiu que "a condição essencial de uma legislação internacional, é a existência de um super-Estado mundial". Duas décadas depois, Raymond Aron concluiria, de forma ainda mais radical, que "a humanidade não terá paz enquanto não tiver se unido num Estado Universal". Os dois estavam discutindo o problema da guerra e da paz, e não o funcionamento liberal da economia mundial, como no caso de Kindelberger e Gilpin, mas todos eles se consideravam "realistas" e defendiam a necessidade de um poder estatal supranacional, para que pudesse existir uma ordem mundial estável, no campo da economia, como no campo da guerra e da paz.

Neste debate, os "pluralistas" ou "liberais", como Joseph Nye e Robert Keohane, tinham uma visão diferente a respeito da natureza e funcionamento deste poder supranacional. Seu diagnóstico histórico e suas propostas apontavam na direção de um poder e uma legislação legitimados coletivamente, e independentes de qualquer Estado nacional em particular. Estavam convencidos da perda de importância dos Estados e defendiam a possibilidade de uma ordem política e econômica mundial, regulada apenas por um sistema de "regimes supranacionais" aceitos e geridos de forma coletiva ou multilateral. Como diziam Nye e Keohane, em 1977, este sistema consistiria numa "verdadeira rede de regras, normas e procedimentos, que regulariam os comportamentos coletivos e controlariam seus efeitos - mesmo na ausência de uma potência hegemônica - de maneira que seria extremamente difícil eliminá-los ou alterá-los radicalmente".

Esta discussão ganhou vulto durante a crise econômica e política mundial dos anos 70. Mas mesmo depois da reversão da crise, na década de 1980, a defesa de um poder supranacional - na forma de um super-Estado ou de um conjunto de "regimes" - se transformou no denominador comum de uma vasta literatura acadêmica e de um debate político internacional que segue em nossos dias, em torno da nova doutrina estratégica unilateral e "preventiva" do governo Bush. Nos últimos anos, esta polêmica

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