Rio de Janeiro, 06 de Outubro de 2026

Podemos estar perto de reviver a crise de 1930

Sexta, 29 de Julho de 2011 às 08:29, por: CdB

[Para aqueles que conhecem a história da década de 1930, oque está ocorrendo agora é muito familiar. Se alguma das atuais negociaçõessobre a dívida fracassar, poderemos estar perto de reviver 1931, a bancarrotabancária mundial que alimentou a Grande Depressão. Mas se as negociaçõestiverem êxito, estaremos prontos para repetir o grande erro de 1937: a voltaprematura à contração fiscal que terminou com a recuperação econômica egarantiu que a depressão se prolongasse até que a II Guerra Mundial finalmenteproporcionasse o "impulso" que a economia precisava].

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Esta é uma época interessante, e digo isso no pior sentidoda palavra. Agora mesmo estamos vivendo, não uma, mas duas crises iminentes,cada uma delas capaz de provocar um desastre mundial. Nos EUA, os fanáticos dedireita do Congresso podem bloquear um necessário aumento do teto da dívida, oque possivelmente provocaria estragos nos mercados financeiros mundiais.Enquanto isso, se o plano que os chefes de Estado europeus acabam de pactuarnão conseguir acalmar os mercados, poderemos ter um efeito dominó por todo osul da Europa, o que também provocaria estragos nos mercados financeirosmundiais.

Somente podemos esperar que os políticos em Washington eBruxelas consigam driblar essas ameaças. Mas há um problema: ainda que consigamosevitar uma catástrofe imediata, os acordos que vêm sendo firmados dos doislados do Atlântico vão piorar a crise econômica com quase toda certeza.

De fato, os responsáveis políticos parecem decididos aperpetuar o que está sendo chamado de Depressão Menor, o prolongado período dedesemprego elevado que começou com a Grande Recessão de 2007-2009 e quecontinua até o dia de hoje, mais de dois anos depois de que a recessão,supostamente, chegou ao fim.

Falemos um momento sobre por que nossas economias estão(ainda) tão deprimidas. A grande bolha imobiliária da década passada, que foium fenômeno tanto estadunidense quanto europeu, esteve acompanhada por umenorme aumento da dívida familiar. Quando a bolha estourou, a construção deresidências desabou, assim como o gasto dos consumidores na medida em que asfamílias sobrecarregadas de dívidas faziam cortes.

Ainda assim, tudo poderia ter ido bem se outros importantesatores econômicos tivessem aumentado seu gasto e preenchido o buraco deixadopela crise imobiliária e pelo retrocesso no consumo. Mas ninguém fez isso. Asempresas que dispõem de capital não viram motivos para investi-lo em um momentono qual a demanda dos consumidores estava em queda.

Os governos tampouco fizeram muito para ajudar. Alguns deles– os dos países mais débeis da Europa e os governos estaduais e locais dos EUA– viram-se obrigados a cortar drasticamente os gastos diante da queda dareceita. E os comedidos esforços dos governos mais fortes – incluindo aí oplano de estímulo de Obama – apenas conseguiram, no melhor dos casos, compensaressa austeridade forçada.

De modo que temos hoje economias deprimidas. O que propõemfazer a respeito os responsáveis políticos? Menos que nada. A desaparição dodesemprego da retórica política da elite e sua substituição pelo pânico dodéficit tem verdadeiramente chamado a atenção. Não é uma resposta à opiniãopública. Em uma sondagem recente da CBS News/The New York Times, 53% doscidadãos mencionava a economia e o emprego como os problemas mais importantesque enfrentamos, enquanto que somente 7% mencionava o déficit. Tampouco é umaresposta à pressão do mercado. As taxas de juro da dívida dos EUA seguem pertode seus mínimos históricos.

Mas as conversações em Washington e Bruxelas só tratam decorte de gastos públicos (e talvez de alta de impostos, ou seja, revisões).Isso é claramente certo no caso das diversas propostas que estão sendocogitadas para resolver a crise do teto da dívida nos EUA. Mas é basicamenteigual ao que ocorre na Europa.

Na quinta-feira, os "chefes de Estado e de Governo da zonaeuro e as instituições da UE” – esta expressão, por si só, dá uma ideia daconfusão que se tornou o sistema de governo europeu – publicaram sua grandedeclaração. Não era tranquilizadora. Para começar, é difícil acreditar que acomplexa engenharia financeira que a declaração propõe possa realmente resolvera crise grega, para não falar da crise europeia em geral.

Mas mesmo que pudesse, o que ocorreria depois? A declaraçãopede drásticas reduções do déficit "em todos os países salvo naqueles com umprograma” que deve entrar em vigor "antes de 2013 o mais tardar”. Dado queesses países "com um programa” se veem obrigados a observar uma estritaausteridade fiscal, isso equivale a um plano para que toda a Europa reduzadrasticamente o gasto ao mesmo tempo. E não há nada nos dados europeus queindique que o setor privado esteja disposto a carregar o piano em menos de doisanos.

Para aqueles que conhecem a história da década de 1930, issoé muito familiar. Se alguma das atuais negociações sobre a dívida fracassar,poderemos estar perto de reviver 1931, a bancarrota bancária mundial que tornougrande a Grande Depressão. Mas se as negociações tiverem êxito, estaremosprontos para repetir o grande erro de 1937: a volta prematura à contraçãofiscal que terminou com a recuperação econômica e garantiu que a depressão seprolongasse até que a II Guerra Mundial finalmente proporcionasse o impulso quea economia precisava.

Mencionei que o Banco Central Europeu – ainda que, felizmente,não a Federal Reserve – parece decidido a piorar ainda mais as coisasaumentando as taxas de juros?

Há uma antiga expressão, atribuída a diferentes pessoas, quesempre me vem à mente quando observo a política pública: "Você não sabe, meufilho, com que pouca sabedoria se governa o mundo”. Agora, essa falta desabedoria se apresenta plenamente, quando as elites políticas de ambos os ladosdo Atlântico arruínam a resposta ao trauma econômico fechando os olhos para aslições da história. E a Depressão Menor continua.

[Tradução: Katarina Peixoto / Sin Permiso].

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