Rio de Janeiro, 08 de Novembro de 2026

Pochmann e o freio do Banco Central

Por Altamiro Borges - Em recente entrevista ao jornal paulistano O Estado de S.Paulo, o economista Marcio Pochmann, que hoje ocupa a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), confirmou os boatos de que se intensificou a luta de idéias no interior do atual governo sobre os rumos da economia. (Leia Mais)

Sexta, 08 de Fevereiro de 2008 às 18:32, por: CdB

Em recente entrevista ao jornal paulistano O Estado de S.Paulo, o economista Marcio Pochmann, que hoje ocupa a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), confirmou os boatos de que se intensificou a luta de idéias no interior do atual governo sobre os rumos da economia. As mudanças promovidas nesta área no segundo mandato do presidente Lula, com a indicação de renomados intelectuais com visões desenvolvimentistas – como o próprio Pochmann, João Sicsú, Paulo Nogueira Batista Jr. e outros –, abalou o “pensamento único” ortodoxo que deu as cartas na primeira gestão. As divergências hoje são explícitas e revelam uma titânica queda de braço.
 
Sem papas no língua, Pochmann afirma que o modelo neoliberal, que ainda tem seus adoradores no Planalto, está em crise no mundo todo e precisa ser superado. “A visão associada ao Consenso de Washington, com ênfase na revisão do papel do Estado, no corte dos gastos e no ajuste fiscal, entrou num ciclo de exaustão, de esgotamento, devido à diferença entre a retórica e o resultado colhido. No âmbito da América Latina, isso ficou muito evidente. Há países que estão atrás de outro receituário”. Esta fadiga do neoliberalismo seria agravada agora com a recessão nos EUA. “Isso coloca em xeque até mesmo o discurso que tinha antes, de que seria possível aos mercados encontrarem a auto-regulação. Frente ao tamanho da crise, recoloca-se o repensar o Estado”.
 
“Pisar no freio ou no acelerador?”
 
Em sua opinião, o Brasil está diante de um dilema estratégico devido aos problemas da economia mundial. “Pisa no freio, eleva a taxa de juros e corta gastos? Ou pisa no acelerador?”. Ele avalia que hoje há maior consenso sobre a urgência de se apostar no crescimento. Para isto, é necessário “recompor a capacidade de regulação do Estado”, ter “um projeto de desenvolvimento nacional”, cortar as taxas de juros e garantir os investimentos na infra-estrutura. “O desafio para sustentar o crescimento é fazer o deslocamento, com cuidado, do que está hoje na ciranda financeira para o investimento produtivo”. Mas, mesmo animado, ele não subestima as resistências, inclusive as internas. E dá nome aos bois: “Queremos pisar no acelerador, o problema é o Banco Central”.
 
A entrevista de Marcio Pochmann não foi gratuita e tem endereço certo. Ela representa mais um lance corajoso dos chamados “desenvolvimentistas” contra os rentistas que mandam no BC e no Ministério do Planejamento, e que ainda “metem medo” no presidente Lula, segundo depoimento do vice José Alencar – outro inimigo da ortodoxia. Antes dela, outro intelectual que não perdeu o senso crítico ao entrar num órgão do governo, João Sicsú, diretor de estudos macroeconômicos do Ipea, propôs radicais mudanças na política monetária e fiscal do BC. “Acho que poderia haver uma regra para limitar quanto o governo gasta na rubrica despesas de juros. O governo gastou, entre 2003 e 2006, cerca de R$ 600 bilhões. Essa despesa não gera empregos nem bem-estar”.  
 
Sabotagem explícita do BC
 
Diante do cenário de crise nos EUA, que deve abalar a economia mundial, o presidente Lula terá que tomar, mais cedo do que tarde, um lado na briga de titãs entre os “desenvolvimentistas” e os neoliberais. Não poderá ficar muito mais tempo na postura de chefão do “condomínio de classe” do Palácio do Planalto. Até porque o BC, liderado pelo banqueiro Henrique Meirelles, insiste em desafiar os planos de desenvolvimento do governo, inclusive o PAC. A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), de fevereiro, já “sinalizou” que elevará a taxa básica de juros, a Selic. Com a desculpa da recessão nos EUA, o BC opta por conter o crescimento.
 
O BC também adotou medidas para conter o aumento do crédito, como a retenção nos bancos de 25% dos depósitos das empresas de leasing. Como representante dos interesses dos rentistas e do

Tags:
Edições digital e impressa