Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Pobre Rio de Janeiro

Por - José Inácio Werneck - As perguntas praticamente inescapáveis da longa reportagem na Revista de Domingo do New York Times neste 22 de fevereiro sobre Papo Reto, um grupo de “cidadãos-jornalistas” em favelas cariocas, são: como um país como o Brasil conseguiu sediar a Copa do Mundo de 2014 e como a cidade do Rio de Janeiro vai sediar a Olimpíada de 2016?

Quinta, 26 de Fevereiro de 2015 às 12:44, por: CdB
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De quem é a culpa nas favelas cariocas, da polícia, dos traficantes ou de ambos?
As perguntas praticamente inescapáveis da longa reportagem na Revista de Domingo do New York Times neste final de fevereiro sobre Papo Reto, um grupo de “cidadãos-jornalistas” em favelas cariocas, são: como um país como o Brasil conseguiu sediar a Copa do Mundo de 2014 e como a cidade do Rio de Janeiro vai sediar a Olimpíada de 2016? Os jornais do Primeiro Mundo são fascinados por países como o Brasil - e sobretudo cidades como Rio de Janeiro e São Paulo - em que a extrema pobreza convive com os luxos e a ostentação das classes privilegiadas. Il va sans dire - e a reportagem do NYT não procura dizer - que tais contrastes impedem o Brasil de efetivamente se tornar um país desenvolvido, pois as pessoas que habitam tais favelas estão “fora do jogo”. Não participam efetivamente do processo de desenvolvimento do país, embora não por culpa sua. Tal constatação sugere que há um grande acerto na política de inclusão econômica e social defendida pelo Partido dos Trabalhadores. Infelizmente, como vemos no dia-a-dia do Brasil, entre a ideia e a realidade cai a sombra. Uma sombra que se chama corrupção. A corrupção é secular no Brasil, vem das capitanias hereditárias, com seu regime de favorecimento aos apaniguados da coroa portuguesa. Sua consequência natural é o favoritismo, o nepotismo,  o sistema cartorial que entrava o funcionamento da máquina burocrática, no Executivo, no Legistativo e no Judiciário, pois em todos eles, em consequência das mínimas oportunidades econômicas, instalou-se de há muito a prática de que as coisas só andam movidas a propinas. Atire a primeira pedra quem nunca subornou o guarda da esquina. O clima de desconfiança entre favelados e policiais, como documentado pelos “cidadãos-jornalistas” do Papo Reto, é inquestionável. Infelizmente, há um outro dado, que a reportagem do NYT ignora por completo: o Papo Reto está disposto a documentar apenas a violência policial? Quando alguém como Dona Dalva morre cravada de balas numa rua do Complexo do Alemão, a culpa é só da polícia ou é também dos traficantes de drogas que com ela estavam envolvidos em um tiroteio? O líder  do Papo Reto, identificado como “Raull” (assim mesmo, com um “l” a mais)  parece optar pela primeira hipótese, dizendo “com os traficantes, você conhece as regras, com a polícia, não”. Pobre Rio de Janeiro, pobre não apenas no baixo poder aquisitivo de seus favelados, mas na avassaladora dependência das drogas. Nossos governos ou são inoperantes (e no Rio de Janeiro as quadrilhas de traficantes se tornaram imensamente poderosas a partir do governo de Leonel Brizola e só fizeram crescer depois dele) ou coniventes. Mas fizemos a Copa do Mundo. E a Olimpíada vem aí. José Inácio Werneckjornalista e escritor, trabalhou no Jornal do Brasil e na BBC, em Londres. Colaborou com jornais brasileiros e estrangeiros. Cobriu Jogos Olímpicos e Copas do Mundo no exterior. Foi locutor, comentarista, colunista e supervisor da ESPN Internacional e ESPN do Brasil. Colabora com a Gazeta Esportiva. Escreveu Com Esperança no Coração sobre emigrantes brasileiros nos EUA e Sabor de Mar. É intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive. Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.
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