Já era hora. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) decidiu que os planos de saúde estão obrigados a pagar ao Sistema Único de Saúde por tratamentos caros, como quimioterapia e hemodiálise. Até agora eles só estavam obrigados a pagar por internação - e nem isso faziam.
A lei que obriga os planos de saúde privado a ressarcirem o SUS é de 1988. No entanto, um levantamento parcial feito no ano passado pela imprensa, demonstrou que as operadoras privadas deviam ao SUS por atendimentos da rede pública entre os anos de 2003 e 2007 R$ 2,6 bi. Desde 1998, há 13 anos, portanto, lançam mão da “empurroterapia”, arrastando seus processos pelos meandros da Justiça. E, ainda que percam em várias instâncias, recorrem - e protelam ao máximo a decisão.
Outra novidade: a Agência determinou, agora, que o dinheiro cobrado dos planos pelo SUS será repassado diretamente ao Fundo Nacional de Saúde (FNS). Isso implica dizer que não necessariamente voltará à unidade de saúde que prestou o atendimento.
Medida atinge em cheio modelo tucano de saúde
O governo tucano de Geraldo Alckmin não gostou nenhum um pouco da determinação. Sua Secretaria de Saúde divulgou nota em que afirma que a ANS "agiu de forma política e não técnica". Na prática, a medida atinge em cheio a sua política de reservar mais e mais número de leitos do SUS-SP para o uso de conveniados a planos de saúde.
Para quem não sabe, uma norma assinada por Alckmin reserva 25% dos leitos do SUS em hospitais paulistas administrados por Organizações Sociais (OSs) de Saúde para pacientes de convênios, caracterizando uma verdadeira privatização dos leitos públicos. O tema é frequentemente denunciado pela bancada do PT na Assembléia Legislativa tucana.
Em resumo, a nova regra da ANS não garante que o valor pago pelo atendimento do conveniado chegue, necessariamente, de volta à OSs que administra o hospital onde foi feito o atendimento. A intenção do Ministério da Saúde é que distribuição dos recursos do FNS tenha uma visão mais sistêmica e equânime entre Estados e municípios.
Violação da lei
A Secretaria de Saúde do governo Alckmin se defende de críticas de privatização dos hospitais paulistas dizendo que sua política "proíbe expressamente reserva de leitos ou preferência a pacientes de planos". Não é o que observamos no dia a dia. O que o governo paulista fez nos hospitais do Estado é uma fraude. Pior. É uma violação clara da lei. É, também, tudo o que os planos privados de saúde queriam.
Em Sertãozinho (SP), neste final de semana, por exemplo, um médico mandou um paciente de SUS enfartado para a UTI. O hospital não atendeu a ordem médica, porque o leito da UTI estaria reservado para um paciente de plano que ia chegar. O médico não teve dúvida: chamou a polícia e pôs o enfartado na UTI na marra. Para evitar esse tipo de situação, o próprio Conselho Nacional da Saúde criticou a política Alckmin por reservar parte dos leitos de hospitais gerenciados por OSs aos planos privados de saúde. Segundo o órgão, a prática no Estado São Paulo fere princípios da Constituição Federal e atenta contra a Lei Orgânica da Saúde.
Alexandre Padilha, ministro da Saúde, também se preocupa com o modelo paulista. “Nós já temos um acesso (à saúde) desigual. Não podemos tomar medidas que aumentem essa desigualdade (no âmbito do SUS)”, criticou.
Planos terão de ressarcir SUS por tratamentos
Terça, 30 de Agosto de 2011 às 10:47, por: CdB