Rio de Janeiro, 06 de Setembro de 2026

Planalto comemora escolha do Brasil para discurso de Rice

Terça, 26 de Abril de 2005 às 17:08, por: CdB

Em um momento delicado no cenário político latino-americano, o governo brasileiro comemorou discretamente a decisão da secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, de fazer em Brasília o mais relevante pronunciamento de sua primeira viagem oficial ao continente.

Segundo uma fonte do Palácio do Planalto, a decisão de falar em público no Brasil traz o reconhecimento implícito da liderança e da importância do país para o equilíbrio regional. Após falar a jornalistas nesta terça-feira, a secretária de Estado tinha um encontro marcado com o presidente Lula.

Na quarta-feira, Condoleezza Rice fará uma palestra sobre a política externa norte-americana em seminário do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (Ibri), seguindo depois para Chile, Colômbia e El Salvador.

A caminho do Brasil, Rice disse que os EUA vêem como positiva a crescente presença global do Brasil e seu papel de potência regional.

A visita oficial de Rice coincide com mais um episódio de instabilidade política no continente: a deposição do ex-presidente do Equador, Lucio Gutiérrez, asilado no Brasil desde domingo.

A crise do Equador expôs a fragilidade das instituições democráticas na maioria dos países da América Latina.

No momento, além do Equador, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia e México passam por algum grau de incerteza política.

Na Venezuela, Hugo Chávez, que também recebera o aval diplomático de Lula num momento de dificuldade, em 2003, triunfou mas não é capaz de conviver pacificamente com a oposição.

O governo constitucional da Colômbia mantém-se acossado pela guerrilha e o narcotráfico.

Presidentes eleitos por maiorias pobres da população estão fragilizados por desafios econômicos e institucionais no Peru e na Bolívia.

Um dos candidatos favoritos à sucessão presidencial no México, o prefeito da capital Andrés Manuel López Obrador, está sendo processado por desobedecer uma ordem judicial, o que pode tirar-lhe a chance de disputar a eleição.

No Paraguai, chefes militares permanecem influindo sobre governos precários, inclusive a partir do exílio, no Brasil.

A República da Guiana e o Suriname têm regimes instáveis, militarizados e fortemente dependes de ajuda externa.

Nesse contexto, o Brasil apresenta-se como exceção de estabilidade democrática e institucional, ao lado do Chile e Uruguai.

Na manhã de segunda-feira o presidente Lula fez uma avaliação do quadro continental com seus principais ministros. Concluíram que crises como a do Equador decorrem mais de fatores econômicos e sociais de desestabilização do que de desajustes políticos institucionais, embora estes existam.

"Não somos uma Suécia; há problemas econômicos, sociais e políticos que não foram resolvidos em nossa região", disse o assessor de Lula para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, em entrevista nesta manhã no seminário do Ibri.

Para Garcia, "os problemas vêm sendo resolvidos dentro de um marco democrático", se comparados com o que ocorria nos anos 1960 e 1970.

"Naquele período, as questões eram resolvidas com intervenções das Forças Armadas, prisões e torturas", afirmou. "Agora se resolvem, muitas vezes, com mobilizações fortes, conflitos de rua e até ações abruptas, como a derrubada de presidentes, mas, em geral, nos marcos constitucionais."

O assessor de Lula advertiu, porém, para a necessidade de mudanças econômicas para garantir a estabilidade regional.

"Se não avançarmos mais do ponto de vista da democracia social e econômica na região, não vamos ter ganhos políticos muito grandes", Garcia.

A visita de Rice é a segunda de um secretário de Estado dos EUA ao Brasil no intervalo de seis meses. A anterior foi de Colin Powell, em outubro do ano passado, informou uma fonte do governo.

Houve um hiato de quatro anos nesse tipo de visita no primeiro mandato do presidente George W.Bush. A última tinha sido a de Madeleine Albright, ainda na gestão de Bill Clinton, em agosto de 2000.

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