Quase todo o comércio ambulante na capital paulista sobrevive da venda de produtos contrabandeados ou pirateados. O paraense Léo Santos, de 32 anos, vende, desde 2001, rádios portáteis e outros produtos asiáticos no calçadão do Viaduto Santa Ifigênia, no centro. Seus fornecedores são lojistas da Galeria Pagé, conhecida como um dos principais pontos de distribuição de produtos contrabandeados da cidade.
Antes de tornar-se ambulante, Léo trabalhava com carteira assinada numa grande rede de varejo em Belém do Pará. Quando perdeu o emprego, mudou-se para São Paulo, imaginando que seria mais fácil encontrar um novo emprego como vendedor. Não conseguiu e teve de ganhar a vida nas ruas. Casado e pai de quatro filhos, o paraense consegue faturar entre R$ 30 e R$ 50 por dia. Como sua margem é de 50% do preço dos radinhos, que varia de R$ 5 a R$ 18, Léo leva para casa de R$ 15 a R$ 25 por dia de trabalho.
- O que eu ganho dá para sobreviver, mas a gente sempre tem que fugir dos fiscais. Quando o rapa pega, leva toda a mercadoria - diz o ambulante, que já perdeu a conta de quantas vezes teve produtos apreendidos.
Solange Rodriguez de Oliveira, de 19 anos, faz parte de uma equipe de seis pessoas que vende aparelhos de DVD chineses por R$ 170 a unidade no Viaduto Santa Ifigênia. Ela desconhece a margem que o agenciador leva por aparelho que traz do Paraguai e recebe um valor fixo de R$ 30 por dia, independentemente de quanto vender. Solange sonha com um emprego com carteira assinada, mas ignora que o contrabando é um dos grandes responsáveis pelo fechamento de postos de trabalho formal no País.
- Não existem estatísticas, mas estimamos que, para cada emprego informal criado na pirataria, o País perde seis na economia formal - diz Roberto Giannetti da Fonseca, diretor de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Na cidade de São Paulo, há pouco mais de 5 mil ambulantes trabalhando legalmente. Eles possuem o chamado Termo de Permissão de Uso (TPU). Mas basta um breve passeio para constatar que as principais vias da capital paulista foram tomadas por ambulantes ilegais. "A presença desses camelôs atrapalha o comércio legal", diz Noburo Takarobe, assessor econômico da Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Os lojistas reclamam que poderiam vender 20% mais se não tivessem barracas de camelôs instaladas na frente das lojas.
- Mesmo entre os ambulantes que têm autorização da Prefeitura, alguns trabalham com mercadorias ilegais - diz Jorge Dib, presidente da União dos Lojistas da 25 de Março, a rua paulistana com maior concentração de lojas atacadistas e varejistas de produtos populares e, também, de camelôs.