Rio de Janeiro, 01 de Setembro de 2026

Pinochet não pede perdão a ninguém

Terça, 25 de Novembro de 2003 às 02:33, por: CdB

O general reformado Augusto Pinochet disse, em uma entrevista emitida na última segunda-feira nos EUA, que não tem que pedir desculpas pelo que aconteceu no Chile durante seu governo e que, ao contrário, são seus opositores os que têm que pedir perdão a ele.
 
- Perdão de que? Se esqueceram que são eles os que têm que pedir perdão a mim, pelos atentados que sofri contra minha vida? - afirmou em uma entrevista à jornalista cubano-americana María Elvira Salazar, transmitida esta noite pelo canal 22 de Miami (Flórida, EUA).

O ex-ditador chileno disse que se referia ao atentado que sofreu em setembro de 1986 pela Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR) 'e de outras bombas que contra mim'.

Perguntado a quem se referia quando dizia 'deles', falou que falava 'desses marxistas e comunistas'.

Falando devagar, com dificuldade para ouvir e agarrado a um bastão de madeira, Pinochet afirmou que não se considerava um ditador, 'porque os ditadores sempre terminam mal'.

Revelou também que escreveu uma carta dirigida ao povo chileno para ser difundida após sua morte.

- Não quero que futuras gerações pensem mal de mim e quero que saibam o que realmente aconteceu, já que sempre atuei sob princípios democráticos - acrescentou o ex-governante chileno ao informar da carta.

Pinochet, que completa 88 anos, nesta terça-feira, reconheceu que é possível que tenha havido excessos durante o regime militar que liderou (1973-1990), mas acrescentou que não lamentava nada e que não tinha que pedir perdão a ninguém por isso.

Salazar, que apresenta todos os dias seu programa 'María Elvira Confronta' no canal 22, disse ao jornal The Miami Herald que durante a entrevista de uma hora lhe chamou a atenção quando Pinochet disse que se considerava uma boa pessoa: 'um anjo'.

Pinochet, que anunciou que está escrevendo uma autobiografia, diz na entrevista que nunca foi um líder impiedoso, mas sim 'um anjo' que atuou pelo amor à sua pátria.

A entrevista aconteceu no começo do mês na residência de Pinochet em Santiago do Chile e Salazar disse que levou quatro anos para obtê-la.

Perguntado como se sente, Pinochet, contestou que sofre às vezes de dores de cabeça que são controladas com remédios, mas que em geral tinha boa saúde.

- Agora mesmo, tenho uma grande dor de cabeça, mas não estou deitado, para poder atendê-la - disse à jornalista.

Perguntado pelo juiz espanhol Baltazar Garzón, que o manteve sob prisão domiciliar em Londres em 1998 e por quase um ano, Pinochet disse que este, assim como outros juízes no Chile, atuam buscando seus próprios interesses e não são justos.

- Na Espanha há muitos comunistas que favorecem Fidel Castro - disse justificando as pretensões de Garzón de julgá-lo pelas violações aos direitos humanos cometidos em seu governo.

Ele classificou o presidente cubano como 'um lobo em pele de cordeiro' e se reconfortou ao considerar-se o responsável pelo Chile não ser agora um 'país marxista', depois da derrocada e morte do presidente socialista Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, e de sua recuperação econômica.

Pinochet sofre com várias afecções derivadas de uma diabete e, segundo opinou a Justiça, sofre também de uma demência vascular progressiva e irreversível, que lhe ajudou a ser absolvido nos processos por violações aos direitos humanos que o comprometiam.

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