Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Picasso tentou obter cidadania francesa

Quarta, 21 de Abril de 2004 às 00:42, por: CdB

O artista espanhol Pablo Picasso entrou com um pedido para obter a cidadania francesa imediatamente antes da invasão da França pelas tropas alemãs, em 1940, mas teve o pedido recusado por ser considerado pela polícia um simpatizante dos comunistas.

A carta com o pedido, com a sua inconfundível assinatura, é o ponto alto da exposição que revela o resultado de 40 anos de investigação policial sobre o artista, que foi inaugurada nesta terça-feira no Museu da Polícia de Paris.

Os registros, entre centenas de arquivos roubados pelos nazistas durante a Segunda Guerra e em seguida pelos russos, em 1945, ficaram em cofres da KGB em Moscou por décadas, antes de serem devolvidos à França em 2001.

Claude Charlot, diretor do Museu da Polícia, disse que até o amigo e biógrafo de Picasso Pierre Daix teria ficado chocado com a descoberta de que ele tinha pedido a naturalização.

A exposição revela que as autoridades acompanharam Picasso desde a chegada a Paris em 1901, começando com um relatório interno de inteligência que o tachada de 'anarquista suspeito'.

O relatório descrevia o pinto de então 19 anos como um rebelde que 'ficava acordado até tarde'. Dizia também que ninguém nunca ouvira Picasso expressar opiniões subversivas, mas notava que o francês do pintor era tão ruim que era mesmo muito difícil entendê-lo.

Na década de 30, Picasso já era mundialmente famoso e pagava uma fortuna em impostos ao governo francês. Ele também havia se tornado um claro opositor da guerra civil espanhola de Francisco Franco.

O mural 'Guernica', de 1937, denunciava o massacre de cidadãos bascos por bombardeiros alemães aliados ao ditador Franco. O curador Charlot acredita que Picasso tenha pedido a cidadania francesa por medo de que seus bens terminassem confiscados se a Espanha declarasse guerra à França.

Orgulhoso, Picasso nunca perdoou a recusa e, ainda que nunca tenha voltado à Espanha, sempre declarou que haveria de morrer espanhol. O artista, que se filiou ao Partido Comunista depois a liberação da França em 1945, morreu em 1973 sem ver a democracia ser restaurada na Espanha.

- Acredito que ele tenha ficado profundamente humilhado com a recusa da França - disse Charlot - Tanto é que ele nunca repetiu o pedido e nunca sequer falou sobre isso.

Tags:
Edições digital e impressa