O país não passava por uma situação tão difícil desde 2009
A economia brasileira encolheu 0,6% no segundo trimestre de 2014 sobre os três meses anteriores e recuou 0,9% na comparação anual, divulgou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira. Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, porém, o fraco desempenho do PIB não é suficiente para afirmar que o país está em recessão. Mesmo com o fato de ter ocorrido dois trimestres seguidos de queda no PIB - que já havia caído 0,2% no trimestre anterior - seriam necessários mais resultados negativos para se ter certeza de que o país entrou em recessão. Ele assinalou que os primeiros indicativos da produção industrial para o terceiro trimestre já mostram recuperação do crescimento econômico. Ele ainda enfatizou que a inflação também já deu sinais de acomodação, e a massa salarial permanece em alta.
– Na minha opinião, não dá para falar em recessão. Recessão é uma parada prolongada, como ocorreu com os países europeus e ocorre quando há desemprego – avaliou. Ele disse que, no primeiro semestre, o Brasil conseguiu criar 500 mil novas vagas de trabalho.
Para o ministro, o mercado consumidor interno também deve reagir com a liberação de depósitos compulsórios e outras medidas anunciadas na semana passada pelo Banco Central, com a entrada de mais recursos para financiamento de bens duráveis. “Temos um mercado consumidor crescendo e a inadimplência caindo, com possibilidade de aumentar a demanda”, avaliou o ministro, no escritório regional da Presidência da República em São Paulo.
O ministro disse que a produção do superávit primário foi afetada com o cenário internacional desfavorável, mas ele mostrou confiança sobre a melhoria no resultado de julho divulgado hoje pelo Tesouro Nacional, que registrou o pior desempenho da série histórica, iniciada em 1997. De acordo com Mantega, os dados indicados pelo BNDES mostram aumento das vendas de máquinas e equipamentos no segundo trimestre e que isso deve repercutir no médio prazo.
– Nós temos um dos maiores superávits do mundo e há condições de fazermos um maior ainda – garantiu.
Investimentos
Os resultados no trimestre encerrado em junho vieram piores do que o esperado por economistas em pesquisa da agência inglesa de notícias Reuters, cujas medianas apontavam para retração de 0,4% do PIB sobre o primeiro trimestre e de 0,6% na comparação anual. O desempenho do primeiro trimestre deste ano sobre o quarto trimestre de 2013 foi revisado para mostrar contração de 0,2%, contra avanço de 0,2% divulgado anteriormente, levando o país a entrar em recessão. O Brasil não vivia essa situação, quando há dois trimestres seguidos de contração, desde a crise financeira global de 2008/2009 e alguns economistas já esperam que o PIB ficará estagnado neste ano.
A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), uma medida de investimentos, recuou 5,3% no trimestre passado sobre o período imediatamente anterior. Foi o pior resultado desde 2009 e marcou o quarto trimestre seguido de retração. Na comparação com o mesmo período de 2013, a FBCF de abril a junho teve queda 11,20%. A taxa de investimento no país como proporção do PIB ficou em 16,5% no segundo trimestre, o pior resultado para esse período desde 2006, quando tinha ficado em 16,4%.
– Todos os componentes caíram, máquinas e equipamentos e construção civil... Isso é uma conjunção de vários fatores, como a alta da (taxa básica de juro) Selic, a desaceleração do crédito... e férias coletivas e parada na indústria automotiva – afirmou a economista IBGE, Rebeca Palis.
O resultado da indústria também foi negativo no trimestre passado, com retração de 1,50% sobre o período anterior e de 3,4% contra um ano antes, segundo o IBGE. Um dos fatores que pesaram na economia no segundo trimestre foi a realização da Copa do Mundo, devido ao menor número de dias úteis em razão de feriados.
O IBGE também informou que o consumo do governo recuou 0,7% no segundo trimestre sobre o primeiro, enquanto que o consumo das famílias cresceu 0,3% na mesma base de comparação. A agropecuária teve expansão de 0,2% no segundo trimestre sobre janeiro a março e ficou estável em relação a igual período de 2013.
Eventual recuperação
Uma eventual recuperação da economia no segundo semestre ainda é incerta, segundo analistas. Mesmo que o país saia da recessão técnica, o desempenho ainda continuaria fraco. O economista-chefe do banco Fator, José Francisco Gonçalves, em nota, manteve a projeção de crescimento do PIB em 2014 em 0,6%, "corresponde ao cenário de crescimento médio zero nos dois trimestres finais de 2014", afirmou.
Mais pessimista, o economista-chefe do BNP Paribas, Marcelo Carvalho, reduziu sua estimativa de incremento da economia brasileira neste ano de 0,5% para zero.
– Os dados disponíveis até agora para o terceiro trimestre estão destruindo qualquer esperança de recuperação técnica significativa na segunda metade do ano – afirmou.
O momento atual da economia é o pior vivido durante o governo Dilma, que tenta a reeleição em outubro. Os anos anteriores, porém, também foram difíceis. Ao finalizar seu mandato neste ano, a presidente entregará a pior taxa média anual de crescimento da economia brasileira nos últimos 20 anos, de 1,7%, se confirmada a expectativa do mercado de expansão de 0,7% do PIB este ano, segundo pesquisa Focus do Banco Central.
Os recentes resultados ruins da economia devem prejudicar ainda mais as chances de Dilma nas eleições. Em pesquisas recentes, a petista aparece perdendo para a candidata Marina Silva (PSB) num eventual segundo turno.
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