Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Petistas e tucanos disputam paternidade das Diretas Já

Sábado, 07 de Fevereiro de 2004 às 09:18, por: CdB

Vinte anos depois, petistas e tucanos disputam, literalmente no papel, a paternidade do movimento das Diretas Já, um dos episódios cruciais da história política recente do país.

O PT saiu na frente com o livro ``Diretas Já -- O grito preso na garganta'', do sociólogo Alberto Tosi Rodrigues, publicado em novembro passado pela editora do partido, a Fundação Perseu Abramo.

O gancho para a publicação foram os 20 anos, em 27 de novembro, de um comício pelas diretas com o PT à frente de sua organização, realizado na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu, em São Paulo.

uitos consideram esse evento como o marco inicial do movimento que encheu as praças do país com multidões de pessoas pedindo a volta da democracia.

Já o PSDB preferiu esperar dois meses para publicar uma revista especial do Instituto Teotônio Vilela sobre o tema, comemorando o grande comício realizado na Praça da Sé, também em São Paulo, em janeiro de 1984.

A publicação tucana procura colocar o então governador paulista, Franco Montoro, na linha de frente do movimento e define o comício da Sé como principal marco de largada das Diretas Já. Montoro e outros fundadores do PSDB --criado em 1988--, como Fernando Henrique Cardoso, Mario Covas e José Serra, estavam na época no PMDB, principal partido de oposição ao regime militar.

Pelas avaliações da época, cerca de 15 mil pessoas estiveram no Pacaembu, número bem inferior às cerca de 250 mil presentes na Sé dois meses depois.

Além desses, vários outros comícios ocorreram nos primeiros meses de 1984, culminando com os megacomícios da Candelária, no Rio de Janeiro, e do Vale do Anhangabaú, em São Paulo, com cerca de um milhão de pessoas cada, também pelas estimativas de época.

O objetivo da campanha era garantir apoio à proposta de emenda constitucional do então deputado do PMDB Dante de Oliveira que restabelecia as eleições diretas para presidente da República.

Sem o número de parlamentares necessários para aprovar a medida no Congresso, a oposição esperava que as mobilizações populares ajudassem a pressionar os governistas a mudarem de posição sobre o assunto, de modo a se obter os dois terços mínimos. 

As duas publicações não se preocupam apenas em ressaltar os feitos dos respectivos lados, também procuram mostrar o que consideram pontos negativos dos antigos aliados e hoje opositores.

Enquanto o livro petista mostra um Montoro titubeante, que não se envolve no comício do Pacaembu e em outros momentos da campanha, a revista tucana ressalta o tom sectário daquela manifestação e lembra a determinação do governador paulista na preparação do evento de janeiro.

O livro de Tosi mostra também os bastidores do movimento e a ambivalência de parte da oposição, que negociava com setores do regime uma saída negociada --o que acabou ocorrendo, de fato, com a eleição de Tancredo Neves-- ao mesmo tempo que ocorriam as manifestações populares.

Já a revista tucana critica o maniqueísmo petista que deixou de apoiar a candidatura de Tancredo, em nome de uma suposta coerência com a população que apoiou as diretas, o que poderia ter aberto o caminho para Paulo Maluf chegar à Presidência, se fosse seguido por toda a oposição.

Mas relatos teoricamente neutros --como o livro ``O Brasil em Sobressalto -- 80 Anos de História Contados pela Folha'', do jornalista Oscar Pilagallo-- acabam confirmando que fazem jus, em certa medida, as duas visões sobre esses e outros protagonistas do movimento.

Além disso, lembram que o primeiro evento público sobre as diretas aconteceu já em junho de 1983, em Goiânia, no que era para ser um simples debate sobre o tema, mas que acabou ganhando as ruas da cidade, reunindo entre três e cinco mil pessoas.

Ao final, a emenda Dante de Oliveira foi rejeitada em 25 de abril. Apesar de obter o voto favorável da maioria dos deputados (298), faltaram 22 votos para se chegar aos

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