O debate sobre política não se restringe aos palanques, ruas e horário eleitoral de rádio e televisão. Os jornais também são um espaço importante para discussão durante o processo eleitoral. A avaliação é de pesquisadores do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e da Universidade Candido Mendes. Desde fevereiro deste ano, eles acompanham no Laboratório de Pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (Doxa) a cobertura das eleições presidenciais feita por quatro grandes jornais do país (O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, O Globo e Jornal do Brasil). Diariamente, são analisadas reportagens, colunas, charges, fotos, infográficos ou mesmo editoriais.
- Através das planilhas, se pode observar os temas das matérias, a posição na página, o espaço, a quantidade de vezes que o nome do candidato aparece e se o conteúdo é positivo, negativo ou neutro - detalha o coordenador do trabalho, pesquisador Gabriel Mendes.
Segundo ele, o trabalho foi idealizado em 2000 por um grupo de alunos de pós-graduação em Ciência Política do Iuperj.
- O objetivo é fazer um inventário do noticiário político. No final, teremos um banco de dados gigantesco a respeito da cobertura política da grande imprensa, o que permitirá ter uma noção geral do clima editorial no Brasil - disse.
Pesquisadores de outros Estados também estão coletando dados para consolidação após as eleições. Para Mendes, ao final, "será possível ver como a imprensa se comporta durante as eleições".
- Se tem casos no Brasil, em eleições presidenciais, de desequilíbrio completo, parcialidade explícita, manipulação. Ou então, descaso porque não interessava muito mostrar a eleição - acrescentou.
Os resultados parciais do levantamento mostram que a imprensa brasileira privilegia, em termos de espaço, o candidato que lidera as pesquisas de opinião.
- É uma cobertura até conservadora, que não dá espaço para todos igualmente - afirma Gabriel Mendes.
Ele lembra que em 2002 o maior espaço nos jornais era dado ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder das pesquisas, e ao então candidato do PSDB, José Serra - a quantidade de aparições chegou a ser equilibrada. Mendes enfatiza, porém, que Anthony Garotinho, na época candidato a presidente pelo PSB, sempre teve índice de intenção de votos semelhante ao do atual candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, mas nunca obteve o mesmo espaço na mídia.
Já Cristovam Buarque, apesar de ter apenas 1% de intenção de voto, seria mais citado pelas reportagens do que os demais candidatos com intenção de voto semelhante. A maior visibilidade na atual eleição, no entanto, continuaria sendo de Lula. "O espaço que tem no jornal é imenso pois além de ser o candidato da situação, é o presidente", ressalta o pesquisador.
De acordo com o estudo da Iuperj, Lula só foi menos citado nos jornais do que Geraldo Alckmin no momento da disputa interna para definição do candidato do PSDB à presidência. Apesar da maior visibilidade de Lula, as referências são, em sua maioria, classificadas como negativas, ou seja, as matérias reproduzem ressalvas, críticas ou comentários desfavoráveis.
O noticiário mais positivo nessas eleições, em contrapartida, seria sobre Heloísa Helena, candidata a presidente pelo P-SOL. Segundo Gabriel Mendes, a candidata só teve saldo negativo nas matérias em duas das 12 quinzenas analisadas desde o começo da pesquisa. Alckmin, por sua vez, teve saldo negativo em apenas cinco quinzenas. As matérias negativas não falariam mal do candidato, mas de sua campanha.