Pesquisadores da USP de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, identificaram uma célula que deve se tornar o principal objeto de ódio de qualquer pessoa que sofra crises de asma. Ela é a precursora das células que coordenam todos os processos alérgicos no organismo, da falta de ar que atormenta os asmáticos aos problemas enfrentados por quem tem alergia a camarão.
A bióloga Maria Célia Jamur, que coordenou o estudo, faz questão de deixar claro que a descoberta é só o primeiro passo: afinal, as tais células só foram achadas, por enquanto, em camundongos, e ainda precisam ter suas características investigadas a fundo. Mas entender melhor sua atuação pode ajudar, no futuro, a controlar alergias de todo tipo e também doenças mais sérias que envolvem um componente alérgico, tal como a esclerose múltipla ou talvez o mal de Alzheimer e as moléstias cardíacas.
As células que Jamur e seus colegas descobriram são as precursoras dos mastócitos, que dão a partida nas reações alérgicas e inflamatórias.
- Os mastócitos estão cheios de compartimentos com grânulos - conta ela. Na superfície dessas células estão moléculas conhecidas como IgEs. Quando substâncias estranhas ao organismo entram em contato com essas moléculas, os mastócitos são ativados.
- Eles passam a liberar mediadores químicos, alguns dos quais já estavam nos grânulos. Outros passam a ser fabricados nesse momento - explica a bióloga. É assim que a alergia surge.
<b>Isca e anzol</b>
Até aí, sem problemas --os mastócitos são velhos conhecidos dos cientistas, mesmo porque sua forma é inconfundível. Mas nunca ninguém havia identificado as células que dão origem a eles. Por isso, Jamur e seus colegas foram em busca de tais precursoras usando uma espécie de isca microscópica: anticorpos capazes de se ligar a moléculas presentes nas células-mães dos mastócitos.
Os pesquisadores acoplaram esses anticorpos a microesferas magnéticas e puseram-se a procurar as precursoras na medula óssea dos roedores, onde provavelmente estariam presentes. Com um ímã de alta potência, foi possível "arrastar" as candidatas a células-mães, separando-as das outras. Ao cultivá-las em laboratório, os cientistas viram que elas realmente viravam mastócitos.
- Agora, entre outras coisas, temos de descobrir quanto tempo essas células ficam na medula dos animais e quanto tempo levam para se transformar em mastócitos - diz Jamur. A esperança é aprender a controlar esse processo, de forma que as precursoras não consigam desencadear a alergia. Seria uma tática mais refinada do que a dos antialérgicos de hoje, que agem depois que os mastócitos já entraram em ação.
O estudo que descreve as células foi publicado em junho deste ano na versão on-line da revista científica norte-americana <i>Blood</i> (www.bloodjournal.org).