A manifestação do comportamento machista entre jovens brasileiros pode acarretar problemas de saúde pública, revelou uma pesquisa do instituto Promundo. De acordo com o estudo divulgado nesta segunda-feira, poucos homens procuram auxílio médico para prevenir ou tratar doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).
- Esse é um dos fatores que elevam os riscos da Aids - afirmou Gary Barker, diretor do Promundo, organização não-governamental que coordenou a pesquisa. Ele definiu ainda o machismo como "não usar preservativo e não participar em questões de saúde reprodutiva".
De acordo com a pesquisa, que entrevistou mais de 700 homens entre 15 e 24 anos, 41% dos entrevistados afirmaram que é a mulher quem deve tomar providências para não engravidar.
Outros 23,9% disseram precisar ter relacionamentos com mais de uma mulher ao mesmo tempo. Barker afirmou que muitos desses relacionamentos extra-conjugais não têm a camisinha como meio de prevenção.
Além disso, 13,7% dos entrevistados consideram uma "ousadia" a parceria requisitar o uso da camisinha e 9% classificam mulheres que andam com camisinha na bolsa como promíscuas.
Do total, 53,9% admitem a possibilidade de usar a violência para "defender sua honra". O levantamento foi realizado em comunidades de baixa renda do Rio de Janeiro.
- Apesar disso, os dados mostram que esses valores existem também na classe média - acrescentou.
A pesquisa mostrou também que 45,8% dos entrevistados acreditam que o trabalho mais importante para a mulher é "cuidar da casa e cozinhar para família" e 25,1% deles acham que é o homem quem decide de que forma o casal vai transar.
A pesquisa sobre machismo está relacionada a um projeto de conscientização da população sobre sexualidade e doenças sexualmente transmissíveis voltada para o público jovem. Como estratégia de aproximação, a iniciativa, chamada de Programa H, utiliza o rap como forma de criar uma identificação entre o público e a mensagem sobre os risco de contrair DSTs.
O rapper Rappin Hood, líder comunitário que utiliza o movimento hip hop para educar jovens de sua comunidade, Heliópolis (capital paulista) disse que é preciso que toda a sociedade esteja engajada.
- Quando eu tinha 12 anos, eu estava ajudando a minha mãe a lavar e a secar os pratos quando meu pai chegou e quase teve um troço por me ver de avental - afirmou o rapper, que foi convidado a participar da entrevista com jornalistas.
Ele acrescentou, ainda, que o Brasil ainda faz um "trabalho de formiguinha" na conscientização da população sobre as questões de gênero. "O machismo existe há 500 anos e sei que não vamos mudar em um dia".
Violência
A pesquisa mostrou que o machismo está diretamente identificado à violência e que não se trata de comportamento exclusivo de regiões pobres.
De acordo com a sondagem, 25 por cento dos homens entrevistados relataram ter utilizado da violência física contra mulheres em relacionamentos recentes.
Com relação ao Brasil, Gary Barker afirmou que o país ainda está longe da conquista de um equilíbrio de gênero, mas que a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem dado bons exemplos neste sentido. Um deles, segundo citou, foi a criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.
- Eu acho que o mundo é machista e eu diria que o Brasil está no meio na classificação entre os países mais machistas do mundo - disse, argumentado que países como os Estados Unidos revelam índices mais altos de comportamentos machistas em algumas áreas.