Em uma sociedade cada dia mais soterrada por índices e estatísticas, as pesquisas eleitorais ou de avaliação dos governantes se transformaram em uma mercadoria tão volátil quanto os negócios dos mercados futuros de câmbio, juros e bolsas. Informações que deveriam ser balizadoras de trajetórias de longo prazo são usadas para orientar decisões de curto prazo - que algumas vezes tem a capacidade de deslocar a trajetória natural. Analisados isoladamente, muitos indicadores podem confundir mais do que ajudar a explicar. Do mesmo modo que os recordes dos índices de desemprego de abril deveriam ser observados como sinal de alívio e não de desespero, os resultados das mais recentes pesquisas de avaliação do governo e popularidade do presidente Lula precisam ser analisados sem o alarme dos apostadores orientados pela pressão do imediatismo.
Quem toma decisões políticas olhando para o presente, enxergou nuvens carregadas para o governo petista na pesquisa do Ibope patrocinada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A pior avaliação do governo Lula em 18 meses (29% de ótimo e bom ao lado de 26% de ruim e péssimo - já foi 51% a 36%). O menor índice de aprovação (51% para 42% de desaprovação - 73% a 13% em março de 2003). E a mais baixa taxa de confiança no presidente (54% contra 43% - comparado a 80% e 16% do início do governo). Em síntese: a frustração da população brasileira com o governo Lula está aumentando, mas o saldo de esperança ainda é um pouco maior que a desilusão. A pesquisa tem combustível suficiente para acionar o alarme no Palácio do Planalto e adjacências.
Para projetar o cenário futuro, no entanto, é preciso ir além da trajetória declinante de popularidade. Analisar os cortes segmentados, cruzar resultados, identificar os fatores que estão influenciando na queda e observar a tendência de outros indicadores e os movimentos do governo para alterar as respectivas trajetórias. A sensação de que a inflação vai aumentar nos próximos seis meses cresceu de 48% (março) para 55% (junho) dos entrevistados. Mas a de que o desemprego vai aumentar permaneceu estável, oscilando de 54% para 55%. A impressão de que a renda geral vai diminuir aumentou de 28% para 32% e a de que a renda individual cairá nos próximos seis meses passou de 18% para 20%.
Com base na análise dos dados feita pela MCI Consultores, o diretor de Desenvolvimento da CNI, Marco Antonio Guarita, registra que essa expectativa negativa ainda não captou a reversão da tendência apontada pelos indicadores econômicos mais recentes: retomada do crescimento econômico, queda no desemprego, aumento das taxas de investimento e poupança, principalmente. A análise segmentada aponta que nos grupos de maior instrução e renda, a expectativa é mais otimista do que há três meses, enquanto nos de menor instrução e renda o pessimismo aumentou.
Algo semelhante ocorre no corte pelo tamanho das cidades. A queda de popularidade do governo foi estancada na Região Sudeste, na periferia das cidades e áreas de grande concentração populacional, onde o desgaste apontado na pesquisa anterior foi maior. Foram justamente as áreas priorizadas pelo governo para canalizar os investimentos e ampliar os programas sociais. A insatisfação cresce nas Regiões Nordeste e Sul e nas cidades médias, o que pode ser a reprodução de uma onde de expectativas e percepções. No Norte e Centro-Oeste e nas cidades pequenas essa onda ainda não chegou.
O debate do aumento do salário mínimo pode ter influenciado na queda de popularidade do governo - 23% dos entrevistados registraram o assunto quando lhe perguntaram qual a notícia mais lembrada. Mas a viajem à China foi comentada por 10%, o que pode ter repercutido favoravelmente. Mas o principal fator de descontentamento continua sendo o desempenho no combate ao desemprego. É apontado como o pior resultado do governo Lula por 41% dos entrevistados (43% na pesquisa anterior). O combate à fome e à pobreza ainda é considerado o melhor