Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Pesquisa avalia compulsão alimentar

Quarta, 05 de Janeiro de 2005 às 17:08, por: CdB

A funcionária pública R., de 46 anos, tem uma história de vida comum a muita gente. Sempre acima de peso, testou todo tipo de dieta, tomou remédios, fez exercícios físicos, mas não conseguia controlar o maior problema, comer desenfreadamente. Sete anos atrás, R. descobriu o que estava errado: ela sofre de compulsão alimentar, o que faz com que consuma grande quantidade de comida em pouco tempo e fora do horário das refeições.

R. procurou ajuda junto aos Comedores Compulsivos Anônimos (CCA) e, graças às reuniões, identificou os alimentos "inimigos", que desencadeavam o exagero: sorvete, biscoito, refrigerante, pão, salgadinhos, chocolate. São itens que agora lhe são proibidos. "Minha meta é não dar a primeira mordida no que me causa compulsão, da mesma forma que o alcóolatra não pode dar o primeiro gole", explica.

Ela faz parte de um grupo que compreende entre 5% e 7% das pessoas que estão acima do peso: são os comedores compulsivos, que ingerem aproximadamente 1.000 calorias em no máximo duas horas, sem qualquer controle sobre si mesmas.

O distúrbio é caracterizado por "farras alimentares" duas vezes por semana num período de seis meses.

Os dados constam de um estudo realizado pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio (Uerj) e do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio (UFRJ) com três mil pessoas, freqüentadoras de shopping centers de São Paulo, Rio, Curitiba, Porto Alegre e Salvador. Cerca de 200 tiveram episódios regulares de compulsão alimentar. A maioria era de gordinhos, mas havia também pessoas anoréxicas, bulímicos e com outros tipos de transtorno.

Ainda não se sabe exatamente o que provoca a compulsão. O psiquiatra José Carlos Appolinário, da UFRJ, que participou da pesquisa, explicou que pessoas que têm tendência à doença podem acabar desenvolvendo o quadro depois de fazerem dietas restritivas demais.

"Pode parecer paradoxal, mas o compulsivo tem que comer, só que em intervalos regulares. Assim, é possível, inclusive, perder peso", disse. O recomendável é que o comedor compulsivo tenha acompanhamento psicológico ou procure um grupo de apoio, como fez R.

A funcionária pública tentou emagrecer por 18 anos, embora nunca tenha sido obesa - o peso máximo que teve foi 75 quilos (ela mede 1,69 metro). Na fase mais aguda, a funcionária pública chegou a ingerir cinco barras de chocolate grandes de uma só vez. "Comprei dez, mas não consegui comer tudo porque fiquei com incômodo na garganta", conta.

As tardes de sábado eram os momentos preferidos para a comilança exagerada. "Eu ia ao supermercado e comprava inúmeros pacotes de biscoito, doces, refrigerante. Eram dois litros de Coca-Cola num dia. Cheguei a passar até cinco horas comendo sem parar, até passar mal." Para não engordar muito, ela tomava anfetaminas.

G., de 30 anos, passou pelo mesmo drama, seis anos atrás. Sua vida desandou. "Faltava ao trabalho para ficar em casa comendo", lembra G., que é advogada. Com medo de ser censurada pelos outros, ela percorria várias lanchonetes, uma seguida da outra, para comprar salgadinhos. Com 1,66 metro, G. chegou a pesar mais de 90 quilos. A comida funcionava como uma droga. Os laxantes eram outro vício.

"Depois de comer muito, sentia um torpor, uma moleza, como se tivesse me drogado mesmo. Sofria muito de depressão também", diz G. Até crises de abstinência ela teve. "Minhas mãos tremeram, suei frio, tive dor-de-cabeça, choradeira." Hoje, pesando 62 quilos e bem longe de doces e massas, G. se sente mais fortalecida, mas não tem coragem de abandonar as reuniões semanais no CCA. "Tudo que consigo é só por hoje. Não há qualquer garantia."

CCA - Criado em 1960 em Los Angeles nos moldes dos doze passos dos Alcoólicos Anônimos, o CCA está no Brasil há 20 anos. Mais informações sobre as reuniões podem ser obtidas na Junta de Serviços Gerais do CCA, pelo telefone 21-2532-5174 e pelo e-mail junccab@uol.com.br.

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