Rio de Janeiro, 01 de Fevereiro de 2026

Perdemos um amigo

Por Alfredo Herkenhoff - O jornalista e escritor Marco Antonio de Carvalho organizou e liderou, em novembro e dezembro do ano passado, uma série de eventos na casa Céu Aberto, na Rua do Lavradio, Lapa. Homenageou com palestras e bate-papo, entre outros, Rubem Braga e Aldir Blanc. (Leia Mais)

Segunda, 25 de Junho de 2007 às 21:03, por: CdB

O jornalista e escritor Marco Antonio de Carvalho organizou e liderou, em novembro e dezembro do ano passado, uma série de eventos na casa Céu Aberto, na Rua do Lavradio, Lapa. Homenageou com palestras e bate-papo, entre outros, Rubem Braga e Aldir Blanc.  Na palestra que proferiu sobre Rubem, o biografista Marco Antonio contou histórias inéditas sobre o cronista. Seguem alguns trechos que compilei, com a minha velha mania de registrar os momentos mais marcantes da minha vida. Fui um dos maiores instigadores da noitada, formulando sem parar perguntas a Marco Antonio, que eu convidara e ele aceitara participar de um projeto envolvendo Rubem, mas sobre o qual nada ainda posso adiantar, a não ser que, de público, quero o colega Bruno Garschagen para substituir o finado amigo à altura.

Marco Antonio dedicou os últimos 14 anos de sua vida a pesquisar tudo sobre Rubem, com o apoio de seu filho único, Roberto Braga, e dos sobrinhos Rachel e Edson Braga. Disse Marco Antônio e registrei (trechos sem revisão):

"Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, Rubem Braga veio ao Rio pela primeira vez aos nove anos, pelas mãos da irmã Carmosina e pelo cunhado, que era um médico, niteroiense que morava em Cachoeiro. Ficaram uns dias em Icaraí e depois no Hotel Glória, durante uma semana, na festa do centenário da Independência em 1922. O deslumbramento de Rubem com o Rio começou aí. O que mais o encantava era a beleza do Rio de Janeiro, a quantidade de edifícios. Esse deslumbramento com a capital da República, com que a cidade tinha a oferecer, ficou marcado para sempre, por toda vida. Voltou para Cachoeiro e lá, no colégio, um professor de português pediu a ele um texto qualquer sobre viagem. Rubem tinha acabado de voltar do rio pela primeira vez. Em dez linhas o vocabulário do menino era inacreditável. Rubem guardou pouquíssima coisa de infância, quase não tem foto. Textos de colégio não há quase nada. Mas este texto que é uma redação sobre a viagem, conta o que era o Rio de Janeiro na sua visão aos nove anos. Ele guardou com a letrinha dele de menino de nove anos. E doou o texto para a casa Plínio Doyle - hoje está na Casa Rui Barbosa. E o texto não é de um menino de nove anos, nem de um adolescente. E texto de poucos adultos. O texto de Rubinho é inacreditável.

"(...) Em 1928, com 15 anos, ele veio morar em Icaraí. Rubem teve um problema com um professor de matemática. O professor achava que ele era burro por não saber matemática. O pai, ex-prefeito de Cachoeiro, aceitou a decisão no mesmo dia: está bom, meu filho. E Rubem foi embora de Cachoeiro. Mesmo hoje isso é um gesto muito liberal para um pai. Rubem foi estudar no Colégio Salesiano, em Niterói, onde ficou durante um ano. Olhava para o Rio A partir daí começa a convivência com o Rio. Era já boêmio.

Ainda adolescente, uns 14 anos... Nessa época, o pai de Chico Buarque de Holanda, Sérgio Buarque de Holanda, passou quase um ano em Cachoeiro. Meados da década de 1920. Sérgio Buarque andava com uma turma em torno dos 25 anos de idade, reunindo empresários, capitalistas. E no meio deles, havia um menino. Rubem Braga acompanhava Sérgio Buarque de Holanda e aquelas pessoas conhecidas em Cachoeiro.

Rubem manteve relação idílica com tudo o que era infância, com o passado, com Cachoeiro, com Marataíses, onde pretendia morar pensando em tudo o que fez e o que não fez. Ele chamava isso de sonhos senis. Rubem começou a se chamar a sim mesmo de velho, de velho Braga, com apenas 18 anos. Ele tinha a coisa do velho ainda muito jovem. Parece que sempre há um travo de melancolia, escreve todo dia sobre a passagem do tempo, acho que é inevitável se tornar melancólico, só não se torna derrotista porque tem uma auto-ironia muito grande não se levar muito a sério.  Desde os 15 ou 16 anos, escrevendo no Correio do sul, por mais que esse de uma dor imensa, não leva a dor muito a sério. Não caía num jargão triste, olha que pena, que pena que eu mereço, como Antonio Mar

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