A margem estreita de um voto a favor da resolução de Honduras e EUA pela condenação de Cuba na Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, confirma o que todos os analistas têm previsto: chega ao fim a capacidade do governo norte-americano de impor esse tipo de decisão contra os cubanos, e no próximo ano é provável que Washington não consiga mais obter sua aprovação.
Mas, pelo menos por mais este ano, os EUA conseguiram aprová-la, novamente de maneira não democrática. Não apenas por causa da margem de um voto - que poderia ter sido anulada, se o presidente "socialista" do Chile, Ricardo Lagos, tivesse feito seu governo obedecer a decisão do seu partido, apoiado por outros partidos, inclusive da direita chilena, abstendo-se e não votando com os EUA, em vez de se submeter ao vergonhoso acordo bilateral de "livre comércio" assinado entre os dois governos; ou ainda se o Brasil tivesse votado contra, em lugar de se abster.
Mas esse caráter antidemocrático é revelado principalmente pela população representada pelos que se alinharam com os EUA e contra eles- pois esta é a verdadeira polarização, e não aquela a favor ou contra Cuba. Contra a resolução se manifestaram governos como os da China, da Índia, da Indonésia, do Paquistão, da Nigéria, da África do Sul, da Federação Russa - que sozinhos representam a mais da metade da população mundial, contra países que somam seis vezes menos pessoas do que esse montante.
Além disso, o governo norte-americano conseguiu apenas que 22 dos 53 países aderissem à sua proposta, com a abstenção - incluída a do Brasil e da Argentina - como uma clara rejeição da manobra norte-americana, como se deduz das declarações das autoridades brasileiras.
Chega assim ao fim a manobra norte-americana de manipulação da Comissão dos Direitos Humanos da ONU, com o seu derradeiro episódio de aceitação das iniciativas norte-americanas de condenação de Cuba. A discussão, proposta pelo governo cubano, da situação pavorosa dos direitos humanos dos prisioneiros de Guantánamo, será uma oportunidade para medir realmente o estado de ânimo de uma Comissão que, mais do que zelar pelos direitos humanos no mundo, seguiu os interesses das grandes potências - EUA e Europa ocidental, ex-potências coloniais e hoje imperialistas - na sua luta contra Cuba, em que se enfrentam à grande maioria da periferia capitalista, maioria esmagadora da população mundial, vítima de suas políticas coloniais e imperialistas.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História
Perde força lobby dos EUA contra Cuba
Por Emir Sader - Margem estreita de um voto a favor da resolução de Honduras e EUA pela condenação de Cuba na ONU mostra que chega ao fim a capacidade de Washington de impor esse decisão. (Leia Mais)
Terça, 20 de Abril de 2004 às 07:54, por: CdB