Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Pensar o aborto sem preconceitos

Sexta, 27 de Maio de 2011 às 06:10, por: CdB

Grupo teatral realiza intervenções artísticas que abordam o aborto e suas implicações na saúde e na vida das mulheres

27/05/2011

 

Patrícia Benvenuti

Da redação

 

O aborto e suas implicações sobre a saúde e a vida das mulheres serão tema de uma série de intervenções artísticas que começam a ser exibidas nesta segunda-feira (30) em diferentes ruas de São Paulo e da região metropolitana.

As intervenções serão encenadas pelo grupo teatral Impávida Troupe e abordarão questões do cotidiano relacionadas ao aborto legal ou inseguro como gravidez, maternidade, paternidade e acessos aos serviços de saúde.

As apresentações fazem parte de um projeto da organização feminista Católicas pelo Direito de Decidir, com apoio do Fundo Social Elas. A psicóloga Valéria Melki, integrante da coordenação da CDD, explica que a iniciativa tem como objetivo levar informação a diferentes públicos que não estão familiarizados com as discussões. Para ela, o uso de um recurso artístico facilita a difusão de novas ideias acerca de um tema considerado tabu.

"As intervenções foram pensadas para debater esse tema de uma forma não tradicional, até porque esse é um tema tabu. Toda vez em que a gente tenta ter um debate público acontece o que houve na eleição [de 2010], preconceito e falta de informação".

Ao todo serão quatro esquetes, cujos roteiros foram elaborados em conjunto entre o coletivo, a Católicas e outras entidades. As apresentações ocorrerão em locais movimentados, a fim de atingir o maior número de pessoas. Outras exibições estão previstas para ocorrer em junho e setembro.

A diretora-artística da Impávida Troupe, Alessandra Cavagna, reforça a necessidade de reflexão sobre o aborto. "A gente não quer levantar juízos de valor, e sim levantar um debate, fazer com que as pessoas pensem sobre o aborto", afirma.

Um dos principais objetivos das intervenções, segundo Alessandra, é colocar no centro do debate as condições das mulheres que recorrem à prática do aborto, mas a partir de uma abordagem sem estigmas. "A mulher não faz isso [aborto] por prazer, é algo muito dolorido, muito delicado. O que queremos é tirar essa carga punitiva de cima das mulheres", afirma.

Essa não será a primeira atividade cultural promovida pela Católicas pelo Direito de Decidir com o fim de debater temas relacionados aos direitos das mulheres. No ano passado, a entidade desenvolveu diferentes atividades para abordar a questão da violência de gênero, que contou com peças teatrais, apresentações musicais e um mural de grafite. Valéria Melki lembra que a repercussão do projeto foi positiva, mas considera que o desafio agora, com o aborto, será maior. "A questão da violência tem uma unanimidade, todo mundo é contra, mas agora vamos tratar de um tema tido como polêmico", ressalta.

Cerca de um milhão de abortos clandestinos são realizados todos os anos no Brasil. De acordo com a Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), realizada em 2010, com mulheres entre 18 e 39 anos em áreas urbanas de todo o país, mais de uma em cada cinco mulheres brasileiras já fez aborto, entre católicas, protestantes, evangélicas ou de outras religiões.

Já dados do Ministério da Saúde revelam que uma mulher morre a cada dois dias em decorrência do aborto inseguro, que é a terceira causa de mortalidade de mulheres no Brasil, afetando principalmente as que são pobres, negras e jovens.

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