Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Pensador de 1905 analisa o Brasil de hoje

Quase esquecido, o médico e pedagogo sergipano Manoel Bomfim escreveu uma cortante análise do Brasil de seu tempo num livro luminoso. Triste é ver que muito do governo Lula é vislumbrado ali. (Leia Mais)

Quarta, 23 de Março de 2005 às 17:56, por: CdB

Nesses dias em que a imprensa abre espaço para as comemorações dos 25 anos do PT e, de quebra, avaliar os dois anos do governo Lula, uma outra efeméride passa em brancas nuvens. Trata-se de uma data redonda, os cem anos de publicação de um livro tão fundamental, quanto esquecido por décadas: "A América Latina, males de origem", do médico e pedagogo sergipano, Manoel Bomfim (1868-1932).

É muito chato, no Brasil, constatar-se a atualidade de algumas teses e análises que deveriam estar soterradas pela História. O incômodo se acentua quando se lê Manoel Bomfim e sua apreciação da vida nacional, em tempos de presidente-operário que um dia teve a fama de radical. Vejam só o que ele escrevia há um século:

"Pouco importa a luta, os conflitos levantes e revoluções que tenham trazido o indivíduo ao poder. Uma vez ali, ´sentindo as responsabilidades do governo´, o verdadeiro homem se revela; tudo parou, o revolucionário de ontem desaparece, as gentes ponderadas e graves podem aproximar-se - ficarão encantadas de verificar que mundos de sensatez nele se encerram ali; a vida vai continuar tal qual era; ´o período de agitação acabou, as responsabilidades etc. impõem o dever de não se criarem dificuldades novas´. Quer dizer: todo o esforço agora é para impedir que se dê execução às reformas em nome das quais se fez a revolução, e para defender os interesses das classes conservadoras, a fim de acalmá-las."

Troque-se a palavra "revolução", que não anda em pauta por aqui nos dias que correm, por "eleição" e o comentário parece ter sido escrito hoje. Gramsci ainda não havia desenvolvido o conceito de "transformismo", para explicar a absorção de dirigentes e pensadores das classes exploradas pela burguesia, mas Bomfim já se valia de algo parecido.

A eterna sensatez e o corte de despesas

Mas nada parecia irritá-lo mais do que a constante sensatez das camadas dominantes, a emoldurar qualquer barbaridade.

"Para justificar esse conservantismo inconsequente, faz-se apelo a todas as fórmulas de senso comum, não o bom-senso que se inspira dia a dia nas necessidades reais. (...) Veja-se por exemplo, como repetem: ´É preciso cortar despesas...´ Por quê? Por que o bom senso tradicional assim o diz. E julgam-se todos dispensados de estudar as coisas, para ver que, por toda parte, tem sido preciso justamente aumentar as despesas públicas, máxime nos países novos, onde as populações crescem mais rapidamente e onde está tudo por fazer. Essa é a verdade".

Darcy Ribeiro era um entusiasta dessa obra, classificando-a de o ponto mais alto da consciência brasileira. "Para Manoel Bomfim", dizia, "o atraso, a pobreza e a ignorância das grandes massas latino-americanas eram de responsabilidade das próprias classes dominantes, que lucravam com elas. É de pasmar que este livro luminoso, editado em Paris, não tenha sido visto e nem lido, senão para ser atacado torpemente por Silvio Romero".

Um Lima Barreto da sociologia

Parte do manto de silêncio colocado sobre o volume tem explicação. Aqueles eram os anos da consolidação, a ferro e fogo, da república oligárquica que, ao mesmo tempo em que empreendia uma brutal reforma urbana no Rio de Janeiro, buscava afastar os pobres e pretos do campo de visão da elite endinheirada. Queriam uma Paris tropical em sua jequice macaqueadora, na qual a bugrada trabalharia de sol a sol, com salários miseráveis, sem reclamar.

De certa maneira, o pensador sergipano faz na sociologia o que Lima Barreto (1880-1922) já fazia na literatura: denunciar o racismo e o elitismo das camadas do topo da pirâmide social. E as armas dessa casta para manter a desigualdade e a miséria eram o cassetete e o bom senso. Tudo é muito natural, tudo foi sempre assim, para que mudar? "Mas o que pode a verdade contra o bom-senso? Quando se estuda o caráter dos homens de estado nas nações da América Latina, o que mais se impõe à atenção é a irrepreensível

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