O diretor e roteirista Agustín Díaz Yanes, cujo policial de 1995 ``Ninguém Falará de Nós Quando Morrermos'' recebeu o prêmio Goya espanhol de melhor filme, mudou radicalmente de registro em seu segundo trabalho, ''Sem Notícias de Deus'', uma comédia brincalhona sobre a luta entre o bem e o mal.
Dotado de um viés satírico muito maior do que filmes mais ''família'' como ``O Céu Pode Esperar'' ou ``It's A Wonderful Life'', a co-produção espanhola-francesa-italiana-mexicana opõe a heroína enviada pelo Céu, Victoria Abril, contra a vilã durona Penélope Cruz, numa luta pela alma do pugilista decadente Demian Bichir.
No retrato divertido que Yanes faz do Paraíso, este é uma elegante boate parisiense administrada por Marina D'Angelo (a sempre radiante Fanny Ardant), onde Lola (Victoria Abril) trabalha como cantora amada pelo público.
Enquanto isso, a ``bad girl'' Carmen (Penélope Cruz) trabalha como garçonete no estabelecimento vizinho e superpovoado, o Inferno, onde se fala inglês e que é repleto de imigrantes ilegais.
Ambos os destinos finais enfrentam o tipo de reviravolta burocrática normalmente reservada às multinacionais. Seus destinos dependem da entrega da alma do boxeador, pela qual Lola e Carmen vão brigar, sendo as duas enviadas à Terra, para isso, disfarçadas respectivamente de sua mulher e sua prima.
Yanes não consegue manter o tom divertido o tempo todo, mas seu elenco faz um trabalho ótimo. Como seria de se esperar, Victoria Abril, uma das atrizes favoritas de Almodóvar, e a sedutora Fanny Ardant dão conta do recado sem problemas. Mas a melhor surpresa do filme é Penélope Cruz.
A atriz, que costuma passar uma impressão de rigidez e falta de jeito em seus papéis falados em inglês, se mostra um arraso falando em sua língua nativa, o espanhol, e representa uma criminosa presa no corpo de uma mulher com fluidez e facilidade irreverentes e deliciosas.