Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Pegida: associação alemã leva às ruas 25 mil contra 'islamização do Ocidente'

Por Luciana Rangel – Na Alemanha, há semanas, nos noticiários, nas ruas, nas conversas de boteco, só se fala em Pegida. Pegida é a abreviação de 'Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes' que significa 'Europeus patrióticos contra a islamização do Ocidente'.

Quinta, 22 de Janeiro de 2015 às 09:06, por: CdB
pegida-lutz-bachmann.jpg
Líder da associação alemã de tendência neonazista Pegida, Lutz Bachmann tenta se parecer com Hitler
Na Alemanha, há semanas, nos noticiários, nas ruas, nas conversas de boteco, só se fala em Pegida. Pegida é a abreviação de 'Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes' que significa 'Europeus patrióticos contra a islamização do Ocidente'. A associação, que não é um partido político, entende-se como um movimento social que se manifesta contra uma "Über estrangeirização“ da Alemanha. O grupo se fortaleceu através das mídias sociais . Os participantes da Pegida protestam pois temem que a religião islâmica se espalhe por toda a Alemanha. O grupo se aproveita do medo do terrorismo para conquistar a opinião pública e colocá-la contra os refugiados e estrangeiros. Desde 20 de outubro de 2014, o movimento organiza manifestações. Os ativistas se consideram cidadãos comuns e chamam as passeatas de “caminhada noturna“. Na capital do Estado da Saxônia, a histórica Dresden, começou reunindo 15 mil. Nas demonstrações seguintes, segundo a polícia, reuniram 25 mil pessoas. Os organizadores falam em 40 mil. Desde então, o movimento vem crescendo e sendo realizado em outras cidades como o "Legida" em Leipzig e "Bärgida", em Berlim. Mas o que faz uma pessoas fazer parte deste movimento? A Universidade Técnica de Dresden, fez uma pesquisa, coordenada pelo professor Hans Vorländer, para entender, quem é o frequentador da Pegida. E teve uma surpresa, a maioria tem cerca de 48 anos, do sexo masculino, não tem religião, pertencente à classe média, empregados, e sem partido. Oportunistas neonazista se aproveitam do evento, mas muitos dizem que eles não são bem-vindos. Entrevistas com participantes da Pegida revelam que o fator de união são variados objetivos. Muitos se consideram à parte da sociedade e não se sentem apoiados pela política. Mas enfatizam que a preocupação principal é impedir a "islamização do Ocidente". O sucesso da Pegida em Dresden, para o cientista político Werner Patzelt, da Universidade Técnica de Dresden, tem entre outras explicações o fato de que a cidade é extremamente conservadora. Em cidades como Colônia, Hamburgo ou Berlim, as demonstrações contra a Pegida obtiveram mais sucesso. Patzelt também acredita que há o fantasma da reunificação. Muitos se sentem desconectados, abandonados e, portanto, não representados. – O povo foi ignorado, o slogan da Pegida 'Nós somos o povo' deve ser interpretado como uma chamada de atenção. Nós ainda estamos aqui, não nos ignore – diz Patzelt. A chanceler alemã, Angela Merkel, se posicionou, publicamente, em seu discurso de Ano Novo, contra a Pegida, sem mencionar o nome do movimento. – Muitas vezes nós vislumbramos o preconceito, e é frio sim, eles têm ódio em seus corações. É evidente que nós acolheremos pessoas que procurarem refúgio na Alemanha – disse a chanceler. O partido conservador CSU, União Social-Cristã da Bavária, temendo perder eleitores, demorou a tomar uma posição. Mas após o ataque à revista satírica Charlie Hebdo, o líder do CSU, Horst Seehofer, exigiu que a Pegida cancelasse suas demonstrações. O Ministro do Interior alemão, Thomas de Maizière (CDU), em programa do canal ARD, citou um estudo que demonstra que integrantes da Pegida se sentem como estrangeiros em seu próprio país: – Essas preocupações nós temos de levar à sério, por isso temos de escutá-los. Temos de promover o esclarecimento. A Legida, manifestação em Leipzig, no dia 21, última quarta, reuniu 15 mil pessoas. Segundo a polícia, vários policiais foram feridos por fogos de artifício, garrafas e ponteiros laser. Os jornalistas também foram agredidos. A polícia alemã, prevendo possíveis atritos, convocou 4 mil oficiais de toda a Alemanha. Mas mesmo assim não conseguiu evitar as agressões e chegou a prender três manifestantes. Um clima bem diferente do tal "passeio noturno". Para o historiador e comentarista político do Jornal Die Welt, Torsten Krauel, "política é feita na Alemanha através de partidos democráticos, não por clubes auto-proclamados. O 'Pegida Clube' quer representar com seus 25 mil manifestantes, os 80 milhões de alemães". Ainda na quarta passada, o chefe da Pegida , Lutz Bachmann, renunciou. O motivo segundo alguns integrantes da Pegida seria que em um post no Facebook, Bachmann fez comentários pejorativos em relação aos refugiados e publicou uma foto dele como Hitler. A cidade de Dresden iniciou um processo formal contra Bachmann. Luciana Rangel é jornalista, produtora de TV e colabora para o Correio do Brasil.
Tags:
Edições digital e impressa