O escritor José Rivera sentiu que ainda tinha muito a dizer sobre Ernesto "Che" Guevara após assinar o roteiro de Diários de Motocicleta, filme dirigido por Walter Salles. Rivera então resolveu escrever uma peça que, afirma, mostra que o revolucionário latino-americano é ainda atual e teria muitas opiniões sobre a guerra no Iraque.
- Quando você está em uma situação em que está matando pessoas e ninguém sabe realmente por que, os tempos exigem que alguém formule essas perguntas - disse Rivera em entrevista concedida em Nova York, onde sua peça School of the Americas (Escola das Américas) vai estrear na quinta-feira.
- Che constantemente formulava essas perguntas e criticava as investidas imperialistas dos EUA em todo o mundo - disse.
Rivera, porto-riquenho que cresceu em Nova York, disse que parte dos diálogos da peça se aplica diretamente à guerra liderada pelos EUA no Iraque.
- As coisas que Che fala no filme são coisas sentidas por pessoas em todo o mundo. Na década de 1960, Che disse que o maior inimigo do mundo era os EUA, e há pessoas que dizem o mesmo hoje - falou o roteirista.
A peça conta a história da última noite de vida de Che Guevara, antes de sua morte na Bolívia, onde ele passou seu último ano de vida tentando fomentar um levante comunista.
O guerrilheiro argentino, figura chave da revolução cubana, foi capturado por tropas do governo e detido numa escola, enquanto os governos boliviano e americano decidiam seu destino.
Uma professora chamada Julia Cortes insistiu em visitá-lo e acabou ficando amiga do revolucionário.
José Rivera contou que tomou conhecimento da história da professora quando fazia pesquisas para escrever o roteiro de Diários de Motocicleta, filme de 2004 sobre a viagem transformadora que Guevara, na época um jovem estudante, fez pela América Latina na companhia de um amigo. Cortes, que hoje está na casa dos 70 anos, foi entrevistada para um documentário suíço ao qual Rivera teve acesso.
- Fui seduzido pela presença dela. Ela falou sobre o encontro com Che e sobre o que os dois conversaram. Tive a impressão de que aquele encontro realmente mudou a vida dela - disse Rivera.
- Comecei a imaginar essa história da última amizade de Che - disse.
Herói para alguns, "demônio" para outros
Rivera disse que, para a peça, imaginou diálogos que abrangem desde o casamento e os filhos de Guevara, a influência de sua mãe, seus ideais e sua filosofia, além de algumas dúvidas sobre o rumo que ele tomou em seus últimos anos de vida.
- Em várias entrevistas Julia fala sobre as coisas das quais ela e Che conversaram, mas é tudo muito resumido - disse Rivera, observando que, desde que escreveu a peça, ele falou com a professora, que foi localizada na Bolívia por um parente de Patricia Velazquez, a atriz venezuelana que representa Cortes.
- Patricia pôde falar com ela ao telefone, e elas combinaram de Julia ir a um cibercafé. Através da Internet, tivemos um bate-papo com todo o elenco - conta.
- Ninguém além dela sabe realmente o que aconteceu naquele quarto - afirmou.
Rivera, que recebeu uma indicação ao Oscar pelo roteiro de Diários de Motocicleta, tinha 13 anos quando Guevara foi morto, em 1967, e se recorda bem do incidente.
- Era a época em que Martin Luther King foi assassinado, quando Bobby Kennedy e Malcolm X foram assassinados, então parecia ser parte de nossos tempos o fato de todos nossos heróis serem mortos, um a um - ele contou.
Rivera disse que, na época, Che Guevara era uma figura tão controversa quanto é hoje: um "demônio" para muitos cubanos exilados e críticos da revolução cubana liderada por Fidel Castro, mas, para muitos universitários dos anos 1960 e esquerdistas, especialmente na Europa, uma figura carismática e idealista.
- Minha filha foi à escola usando uma camiseta de Che