O escritor Paulo Coelho acredita que os valores importantes se perderam na busca frenética pela fama e volta um olhar crítico sobre as celebridades num romance ambientado no meio do glamour e do brilho do festival de cinema de Cannes. O vencedor está só foi lançado este mês em inglês, sob o título The winner stands alone.
A obra acompanha o rico empreendedor russo Igor, que também é serial killer, enquanto ele recorre a medidas extremas para reconquistar sua ex-mulher Ewa. Por meio de um elenco de personagens que incluem belíssimas modelos, magnatas do cinema, candidatas a atrizes e outros, o autor brasileiro disse que escreveu 'não um thriller, mas um retrato sem retoques de onde estamos agora'.
Aos 61 anos, o autor de O Alquimista, que costuma comparecer regularmente ao festival de Cannes, se propôs a tentar entender o comportamento das pessoas que frequentam o festival. Pessoas dotadas de beleza, muito dinheiro, ou as duas coisas, comparecem anualmente ao resort na Riviera francesa e se digladiam para conseguir cobiçados convites para festas, perdem o sono para decidir o que vestir e sonham em ser vistas por algum olheiro e convocadas para serem a próxima revelação do mundo do entretenimento.
– Eu disse: Meu Deus, essas pessoas estão aqui, gastando fortunas. Cadê a diversão? Foi essa a pergunta que eu me fiz - disse Paulo Coelho.
– Por que elas se comportam assim? Foi esse o ponto de partida para eu escrever um livro sobre moda, celebridade e valores, porque é também um livro sobre valores – explicou.
Tendo vendido dezenas de milhões de livros, e com O Alquimista prestes a ser transposto para o cinema num filme produzido por Harvey Weinstein, Paulo Coelho até certo ponto faz parte do mundo que ele procura dissecar em O vencedor está só.
Mas, disse ele, há uma diferença entre ganhar fama e fortuna graças a um talento ou paixão, como escrever, dirigir ou atuar, e querer a celebridade como finalidade nela mesma.
– Hoje esse virou uma espécie de doença. Todo o mundo quer ser famoso simplesmente para ser famoso, não porque tenha algo de importante a oferecer ou algo a compartilhar – disse.
O vencedor está só faz uma descrição pouco elogiosa da celebridade, e mais especificamente de Cannes, onde um elenco de personagens desesperados revela o que realmente se passa por trás dos tapetes vermelhos, iates de luxo, roupas de grife e festas chiques.
Maureen esperou três anos para conseguir ser chamada para uma reunião em Cannes com um empresário do cinema que ela espera que leve seu filme para a tela. Gabriela está empolgada porque foi convocada para um teste, e seu agente lhe manda uma mensagem de texto dizendo 'aceite qualquer coisa que eles oferecerem'.
A insensatez humana é exposta, e muitos sonhos são jogados por terra na medida em que poderosos procuram explorar jovens cheios de esperança de fazer sucesso. - Não sei por que eu sempre quis isso - confessa o 'Astro' sem nome quando se aproxima do tapete vermelho com Gabriela.
Paulo Coelho disse que se baseou em suas próprias experiências em Cannes.
– O livro é 100% baseado em minhas próprias experiências. É perfeitamente exato. Bom, na realidade eu nunca conheci um serial killer, mas no que diz respeito à 'máquina' de Cannes o livro é 100% preciso – garantiu.
Ele acrescentou que, mais do que tecer uma crítica à celebridade, o livro examina o desejo das pessoas pela fama e sua disposição de seguir modismos.
– Eu queria compreender. Criticar alguma coisa é fácil, mas isto não é bom nem mau, é a realidade, e eu preciso entender essa realidade – concluiu.