O Carnaval carioca pode estar se tornando vítima de seu próprio sucesso, já que algumas das escolas de samba mais tradicionais da cidade afirmam que o patrocínio de grandes empresas estaria prejudicando a escolha de temas criativos para os desfiles.
Esse patrocínio, em muitos casos, vem substituir a ajuda dos banqueiros do bicho que há décadas financiam o Carnaval do Rio de Janeiro. Mas o patrocínio de empresas vem exercendo influência sobre as escolas de samba.
A Mocidade Independente de Padre Miguel, que abre o desfile das escolas de samba do grupo 1 do Rio, no domingo, se diz feliz em contar tanto com um patrocinador quanto com um "patrono" da família Andrade de banqueiros do bicho.
A escola diz que, desse modo, se sente mais independente.
"Um desfile de carnaval tornou-se uma coisa cara, que custa mais de 4 milhões de reais. As escolas precisam de muita ajuda, e nós contamos com as duas fontes", explicou Paulo Menezes, diretor artístico da Mocidade Independente, fundada em 1955, no bairro humilde de Padre Miguel.
A patrocinadora oficial da escola é a empresa italiana de telecomunicações TIM, razão pela qual a Mocidade escolheu a arte italiana como tema de seu desfile.
"Patrocínio é uma coisa ótima, desde que o patrocinador não interfira no processo criativo", disse Menezes, 40 anos, carnavalesco há dez.
"A TIM pediu apenas que dedicássemos o desfile à Itália, o que é ótimo. Às vezes há patrocinadores que dizem o que a escola pode ou não fazer, ou que simplesmente a usam para sua própria publicidade, e isso não é bom."
Os carros alegóricos da Mocidade vão fazer uma homenagem à arte italiana clássica, ao Carnaval de Veneza, à cozinha e à moda italianas.
O tema do desfile da Mangueira, patrocinada pela estatal Petrobrás e pela Eletrobrás, é uma homenagem menos sutil às duas empresas. O samba-enredo repete o slogan da Petrobrás: "O desafio é a nossa energia".
Quanto ao jogo do bicho, as autoridades tentam reprimi-lo há muitos anos, mas os bilhetes continuam a ser vendidos nas ruas.
"A Mocidade Independente tem laços estreitos com a família Andrade; isso é de conhecimento público e nunca foi problema", disse Paulo Menezes. "Nosso patrono ajuda a escola o ano todo. Ele vai à quadra e sai no desfile", acrescentou.