Está aberta a temporada de exaltação do tucanato, por parte de certa imprensa. No fim de semana, os jornalões de São Paulo e as revistas semanais Veja, Época e Istoé derramaram-se em extensas e laudatórias matérias ao candidato do PSDB ao palácio do Planalto, o governador de São Paulo Geraldo Alckmin. De quebra, o ex-presidente FHC recebe extensa massagem no ego.
A definição do candidato tucano é pauta de inegável relevância jornalística. Dono da terceira maior bancada no Congresso e no comando de sete estados da federação - entre eles São Paulo e Minas Gerais -, além de ter governado o Brasil por oito anos, o PSDB é uma considerável força política. Qualquer postulante pelo partido teria relevância no cenário político. Mas o que a mídia faz, a partir daí, ultrapassa qualquer limite razoável.
O órgão dos Civita
Comecemos pela Veja. A edição desta semana poderia substituir, com larga vantagem, qualquer boletim de propaganda do PSDB.
Vamos conferir. A revista tem 136 páginas, contadas as capas. Dessas, 59 são de publicidade, o que resulta em 77 páginas editoriais. Se forem descontadas as destinadas ao índice, ao expediente e às colunas fixas, sobram 55 páginas do que se classifica como "reportagem".
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é incensado na edição com a capa - "FHC explica FHC e o Brasil" - e mais 15 páginas internas. O pretexto é o lançamento de seu livro "A arte da política, a história que vivi", cujos trechos são apresentados com ares de furo mundial. A notícia sobre a entronização de Alckmin como candidato ganhou outras 8 páginas.
Na ponta do lápis: de 55 páginas editoriais, o PSDB merece 24, ou 44% do semanário. Não bastasse, o tom geral das matérias é daqueles de fazer corar o personagem Fagundes, do cartunista Laerte, especializado em adular superiores.
O redator-chefe, Mario Sabino, assina a matéria principal sobre Fernando Henrique e bota os adjetivos para trabalhar. Segundo o jornalista, estamos diante do "melhor presidente que o Brasil já teve", "A arte em política" é "o livro mais esperado do ano" e nele, "o ex-presidente explica o Brasil". O autor é "um dos protagonistas mais importantes - se não o mais importante - da cena nacional no último quarto de século" e, para o repórter, trata-se de "um sedutor", cheio de "savoir-faire", que usa "dessa capacidade (...) para atrair eleitores, correligionários e adversários (nem todos, é verdade) para o caminho da razão". Sem esmorecer, Sabino vai fundo: "nos anos FHC, o Brasil deixou para trás a improvisação na economia, começou a desvincular o conceito de Estado daquele de nação, integrou-se ao mercado mundial e traçou ao menos um esboço promissor de futuro". Comentando a obra, o redator pontifica: "Como o ex-presidente em questão é o sociólogo Fernando Henrique, o leitor ganha de brinde reflexões que se alternam com os fatos relatados". E além de tudo, o livro é "legibilíssimo, graças também ao didatismo e à relativa parcimônia com que são citados filósofos e pensadores políticos".
Sobre o Plano Real, palavras retumbantes: "salvou a economia brasileira da hiperinflação e propiciou que o país entrasse nos eixos da modernidade". De quebra, e a essa altura, com a mão já cansada, Sabino sentencia: "Fernando Henrique soube combinar a arte da política com outra arte difícil e até certo ponto inata - a de viver. 'Joie-de-vivre', como diria ele".
Fica-se sabendo também que FHC foi auxiliado, na oceânica tarefa de preencher 699 páginas, pelo "jornalista Ricardo Setti, que foi editor de Veja, diretor do Jornal do Brasil em São Paulo e de várias publicações da Editora Abril". Sabino chega lá, com certeza! Até porque Setti mostra o caminho: "Foram cinco meses de um trabalho intenso e prazeroso".
Subordinados de Sabino, Fabio Portela e Camila Pereira, encarregados de cuidar do governador de São Paulo revelam mais comedimento no trat